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Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005

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postado por Wir Caetano |
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Quinta-feira, Dezembro 02, 2004
LITERATURA DE BLOG E GERAÇÃO 00
Blogueiros na berlinda
Os críticos Italo Moriconi e Flávio Carneiro discutem a existência da geração 00
Ítalo Mariconi e Flávio Carneiro: visões diferentes
[Paula Barcellos, do Jornal do Brasil]
Está na moda discutir, tanto na academia quanto nos jornais - sem contar os inúmeros sites e blogs espalhados Brasil afora - a existência da chamada geração 00 de escritores brasileiros. Se ela existe ou não, se a nomenclatura ou o rótulo é contundente, só o tempo vai dizer. Mas é fato que há um grupo de jovens autores publicando seus livros, movimentando o marasmo da crítica e, principalmente, dando muito o que falar - e falando muito também.
Há aqueles que acham uma afronta a expressão ''literatura de blog'' ou ''blogueiros''. Mas existiria definição mais pertinente para uma Clarah Averbuck, por exemplo? Pois bem, para não instigarmos apenas novos determinismos ou polêmicas infundadas e até cabotinas, convidamos os críticos literários e também escritores, Flávio Carneiro e Italo Moriconi, para um bate-papo sobre o que anda acontecendo na prosa brasileira contemporânea.
Flávio Carneiro, que lança em março pela Rocco No país do presente: ficção brasileira no início do século 21, reunião de 60 resenhas de obras de autores novos e também de consagrados, de início já deixou bem clara a sua postura sobre a tal geração 00:
- Não acho que se deva definir ''geração 2000'', é apenas mais um rótulo, não ajuda em nada a entender o que se passa na ficção atual.
Organizador de Os cem melhores contos brasileiros do século (Objetiva), Italo Moriconi discorda um pouco de Flávio e até arrisca algumas características da nova safra de escritores:
- É uma geração mais linkada a uma literatura surgida a partir do suporte da internet. Às vezes, nem existe referências literárias, a inspiração pode estar vindo do próprio umbigo do escritor, como no caso dos blogueiros.
Mas num ponto eles concordam: não há mais espaço para uma nova Clarice Lispector ou um novo Guimarães Rosa. Essa cobrança por um novo cânone, que normalmente parte dos próprios críticos, é por eles condenada. Não há mais uma cultura intelectual exclusivamente literária, terreno fértil para o surgimento de gênios.
Para Flávio Carneiro, quem reclama a falta de uma ficção original brasileira nos últimos anos deveria rever seus conceitos de inovação. Afinal, o que não falta são bons escritores por aí.
Nelson de Oliveira, ao utilizar a denominação geração 90, provocou muita polêmica. Mal acabaram essas discussões, surge outro rótulo, a geração 00. O conceito de geração literária ainda é válido?
Flávio Carneiro - O conceito de geração é bastante enganoso. Dá a entender que se trata de um grupo, quando, na verdade, esse grupo não existe, o que existe são escritores que começaram a publicar numa mesma época, e isso não quer dizer muita coisa. Sobretudo hoje, quando a diversidade é a principal marca da ficção, com os escritores seguindo caminhos bem diferentes uns dos outros. O conceito de geração é resíduo de um tempo em que ainda se acreditava em grupos e em projetos coletivos.
Italo Moriconi - Uma geração literária, artística ou intelectual não se define apenas por idade ou pela coincidência cronológica. Uma geração no sentido forte do termo é um grupo ou diversos grupos que possuem algum tipo de identidade estética ou ideológica, mesmo que essa identidade seja pluralista, como ocorre hoje em dia.
O que faz um escritor pertencer à geração 90? E à 00?
FC - Ter começado a publicar em algum momento dos anos 90, mais nada, porque o resto é só diversidade. Não acho que se deva definir ''geração 2000'', é apenas mais um rótulo, não ajuda em nada a entender o que se passa na ficção atual. O que há são bons e maus autores que começaram a publicar de 2000 pra cá.
IM - Acho difícil estabelecer uma diferença entre as gerações 90 e 00. Elas próprias é que nos deveriam fornecer essa diferenciação. Tenho uma certa tendência a ver tanto os escritores jovens dos 90 quanto os escritores novos dos anos 00 como parte de um mesmo momento na história recente da cultura brasileira. Arriscaria uma diferenciação no sentido de que vejo a chamada geração 00 mais linkada a uma literatura surgida a partir do suporte da internet, dos blogs. Um traço comum às gerações 90 e 00 é que já não tomam mais como seus modelos absolutos a Clarice Lispector e o Rubem Fonseca, que foram os grandes mestres da geração 70. Creio que as referências são mais diversificadas e às vezes nem existe referências literárias, a inspiração pode estar vindo do próprio umbigo do escritor, como no caso da geração 00 blogueira.
O escritor gaúcho André Takeda diz que, para a literatura ir além, é preciso mais sites, mais editoras, mais novos escritores. Concordam?
FC - Não. Temos editoras e escritores em número suficiente no Brasil. Precisamos de mais leitores, livrarias, bibliotecas públicas, programas de incentivo à leitura.
IM - Diria que a quantidade é um fator muito importante, mas acredito que a literatura vai para a frente fundamentalmente através do impacto causado pelos autores mais talentosos, pelo fator qualidade. Cabe à critica e ao público ir peneirando ao longo dos anos quem são os autores realmente bons dentro de uma geração.
Blog é literatura?
FC - Literatura é, até porque o conceito de literatura é bastante amplo e sob seu teto generoso podemos abrigar várias formas de escrita. Agora, se é boa literatura ou não já é outra história. Clarah Averbuck, a meu ver, representa certa vertente atual, formada por autores que levam ao pé da letra a frase: minha vida daria um romance. Dá romance, tudo bem, mas romance ruim. São autores que não dominam o ofício, que têm um mínimo de técnica e um máximo de presunção. Já me disseram que os blogs devem ser valorizados, porque apontam para um traço da cultura contemporânea etc. Concordo, se a questão for tratada do ponto-de-vista da sociologia, dos estudos culturais ou algo assim. Mas o fato de ser uma manifestação legítima de certo momento de determinada cultura não é o bastante para garantir a qualidade do que é feito.
IM - Blog é literatura em potencial. Acredito firmemente que o atual estágio da civilização tecnológica, marcado pelo computador e pela comunicação virtual, é infinitamente mais favorável à leitura e à escrita que o estágio anterior, televisual. Literatura é uma arte que exige que a pessoa tenha aprendido a tirar prazer da disciplina mental e corporal.
Em geral, os críticos universitários resistem a estudar o momento literário em andamento. Por quê?
FC - Falar do presente é sempre delicado. Fomos educados segundo os pressupostos da história tradicional, que privilegia o distanciamento na análise do fato. Mas hoje novos historiadores já defendem uma idéia diferente: é possível falar do fato no momento mesmo em que o vivenciamos. Acho que a questão aqui é outra. É a prepotência do discurso do historiador e do crítico literário que quer dar a palavra final sobre determinado autor ou obra que os leva à necessidade de distanciamento. Acreditam que sua função é julgar, e para tanto precisam de tempo. É por isso, por esse princípio equivocado, que a crítica dá pouco valor ao estudo do contemporâneo. O crítico não precisa julgar nada, embora às vezes possa até fazê-lo, mas sem ter necessariamente esta obrigação. O que ele deve fazer, sempre, é pensar sobre o seu objeto: o texto literário. E por que não pensar sobre o objeto que acaba de ser produzido? Por que esperar que ele se estabilize, se transforme em cânone? Alguns críticos, me parece, têm medo de errar, de, por exemplo, elogiar determinado livro e daqui a alguns anos a academia chegar a um veredito: esse livro é ruim. Isso iria depor contra o tal crítico que elogiou a obra. Mas também aí há um equívoco: o crítico não tem que dar satisfação a ninguém a não ser a seus leitores, que merecem ler análises pertinenentes. E quem garante que a academia, num segundo momento, não poderá reavaliar seu veredito, aprovando o livro que antes reprovava? O crítico não tem que se sujeitar a isso, seria uma loucura.
IM - Acho que sua pergunta reflete um certo mito negativo. Na verdade, em um bom número de universidades brasileiras, tanto em Letras como um pouco em Comunicação, existem muitos professores que levam a literatura atual para a sala de aula. Existem universidades mais tradicionais, como a USP, que não chegam sequer a Clarice e Rubem em seus programas de graduação. Mas não se pode fazer dessa questão um fetiche, pois não cabe à universidade funcionar a reboque do ritmo vertiginoso do jornal e da TV. Para a universidade, a literatura e a arte não podem ser apenas um espaço de novidade e atualidade. Cabe à imprensa cultural e ao movimento artístico extra-universitário agitar e mobilizar em torno da produção nova. Agora, é claro que seria maravilhoso voltarmos aos anos 60 e 70, quando a universidade era um celeiro fundamental de renovação.
Com o boom dessa geração, pode-se dizer que foi criada uma nova maneira de fazer literatura?
FC - Não, acho que seria exagero.
IM - Não sei se está sendo criada uma nova forma de literatura pelas novas gerações. Sei que a internet oferece um tremendo potencial de experimentação, mas a verdade é que vemos muitos autores jovens buscando expressar-se de forma bem tradicional, seja através de um estilo confessional pós-adolescente (na literatura blogueira), seja através de relatos realistas de tipo jornalístico sobre a vida nas periferias pobres (o chamado retorno do real). A meu ver, a característica mais forte da literatura mais recente é colocar a figura autobiográfica do autor dentro do texto ficcional. Os textos mais interessantes nessa linha são aqueles em que a figura do autor aparece, mas de maneira mentirosa, ou seja, é um confessional fingido.
Muitos questionam a falta de uma nova Clarice ou um novo Guimarães Rosa, como se não houvesse nada de inovador.
FC - Não há mais uma nova Clarice ou um novo Rosa porque já não cabe, hoje, uma escrita tão personalizada quanto a deles. Clarice e Guimarães são os últimos remanescentes das vanguardas do século 20. Criaram, cada qual à sua maneira, obras de forte experimentação de linguagem, às vezes chocando ou pelo menos incomodando seus contemporâneos. Hoje já não há espaço para isso. O que é muito bom. Adoro Rosa, adoro alguns livros (não todos) de Clarice, mas eles criaram uma ficção que não caberia no panorama atual. Eles escreveram contra certos padrões determinados, derrubando muros, desconstruindo modelos. O que vejo hoje é algo que costumo chamar de transgressão silenciosa. Uma transgressão que evita o estardalhaço, que não chama a atenção, que vai roendo por dentro. Quem reclama da falta de uma nova Clarice ou um novo Guimarães Rosa deve rever seus conceitos de originalidade, de inovação. Há muita coisa original na ficção brasileira dos últimos anos, e os melhores autores, na minha opinião, são justamente aqueles que enveredam por essa transgressão silenciosa.
IM - Não temos mais uma cultura intelectual exclusivamente literária, por isso os novos escritores não estão nem aí para se transformarem em gênios literários, pelo simples fato de que nenhum tem com a própria atividade aquela relação quase sagrada com a escrita que a geração modernista tinha. Guimarães Rosa, antes de saber que era gênio, quis efetivamente ser um gênio. Alem disso, só dá pra ser gênio em literatura quem tem seu sustento garantido e hoje os nossos escritores precisam trabalhar para sobreviver. Às vezes, passam-se várias gerações sem que apareça alguém realmente excepcional. Acho que os vários séculos de Cervantes a Guimarães Rosa produziram um corpus laico de livros sagrados que pode nos alimentar por milênios.
Qual a importância do Encontros de Interrogações, realizado essa semana em São Paulo?
FC - Acho muito importante. É preciso elaborar programas, ações que contemplem ao mesmo tempo o incentivo à leitura e à criação literária. Pelo que sei, um dos principais objetivos desse encontro foi o de levantar, a partir do debate, sugestões efetivas nesse sentido, a serem encaminhadas às instâncias governamentais. Espero que seja bem produtivo.
IM - Acho que é uma iniciativa interessante. Lamento não ter sido convidado. Mas acho também que escritores não funcionam muito como coletividades sindicais. Todo escritor de verdade é espirito livre, autônomo, independente, indomável. Por outro lado, uma geração artística e literária é sobretudo um grupo ou vários grupos que desenvolvem estratégias comuns de inserção nos circuitos da literatura e da arte. Os modernistas fizeram isso através das técnicas de choque da vanguarda e depois pela cooptação pelo Estado, a geração 70 através do diálogo com a universidade e a politica, a geração 90 através de técnicas publicitárias e a geração 00 (assim como já tambem a 90) através de técnicas de visibilização na rede. Portanto, cada nova geração cria seus próprios circuitos de consagração. Não se trata de criticar, trata-se de entender como a coisa funciona e como varia historicamente. O importante é que funcione.
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11:55 AM
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NO CADERNO E IDÉIAS DO JB...
O escritor pernambucano Marcelino Freire, um dos curadores do Encontros de Interrogação, colóquio de que reuniu cerca de cem prosadores, poetas, jornalistas e críticos literários em São Paulo, nos dias 22 e 23 de novembro
[Marcelino Freire](*)
Foto:César Ferreira
Ao final do Encontros de Interrogação nos perguntaram: por que vocês não chamaram o Italo Moriconi? Êta danado! Logo ele, organizador de um dos mais importantes livros para a difusão da literatura brasileira, Os cem melhores contos brasileiros do século (Objetiva). Outra: por que não chamaram mais autores da Coleção Rocinante, publicada pela carioca 7Letras? Cadê a Azougue? Onde socaram o Reinaldo Moraes? Tanto faz? E a Adriana Lisboa? Com quantos paus se faz uma canoa? Com quantas canoas? E o Ronaldo Correia de Brito? Cristo! Tanta gente ficou de fora. Quem está enterrado no túmulo do soldado desconhecido? Por que não chamaram o Paulo Lins e o Fernando Bonassi? Por acaso foi para Mongólia o Bernardo Carvalho? E o Marcelo Mirisola e a Márcia Denser? Para onde vai a luz quando o escuro se acende? Para o limbo? Ou para o Olimpo? Por que não tiraram escritores das dependências da ABL? Por que não seguiram o exemplo das bienais, ora essa? Parece que bebem. Queriam saber, inclusive, onde se escondia Evandro Affonso Ferreira. Que, na sua graça costumeira, disse em uma das melhores mesas do Encontros: ''o papel do escritor é A4''. Ou seria higiênico? Cadê o Mário Bortolotto? E o Carlito Azevedo, o Antônio Cícero, o Fabrício Corsaletti e o Heitor Ferraz, ora? E êpa! Nada sem resposta uma bosta. Qual a medida do possível? Ufa! Prefiro aqui falar sobre a prosa, da qual cuidamos eu e o Nelson de Oliveira. Da poesia se encarregaram Claudio Daniel e Frederico Barbosa. Deus existe para quê, me respondam agora. Melhor falar o que aconteceu do que ficar neste vazio besta. E irremediável. Traríamos, sim, o pessoal da revista Ácaro, mas não deu. E o da revista Et Cetera. Putz grila! Tanta gente que igualmente valeria a pena. E que veio. Dos mais distantes sítios e sites. O sotaque foi a estrela do evento. A exemplo de João Filho, vindo direto de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, cujo primeiro livro, Encarniçado, foi publicado recentemente pela minúscula editora Baleia. Do gaúcho Cardoso, criador do e-zine CardosOnline. Já ouviram falar? Alguns jornalistas vieram perguntar de onde saiu tanto escritor desconhecido e saravá. Caetano Veloso bem que poderia ter vindo apresentar o Manoel Carlos Karam, assim como fez com o Agualusa lá na Flip, não acham? Quanto tempo dura o casco de uma tartaruga? Parati também é aqui, quem diria? Nosso mar de automóveis surpreendendo os poetas da Paraíba - como o Linaldo Guedes, editor do jornal literário Correio das Artes, publicado em João Pessoa há mais de 50 anos. Sem esquecer a vinda do pernambucano Raimundo Carrero, que ministrou uma oficina - como fizeram o gaúcho Assis Brasil, o paulistano João Silvério Trevisan e o pernambucano Frederico. Os quatro dando dicas para dezenas de escritores iniciantes - atrás de respostas para alguns dos seus males, sei lá. Se há sempre uma luz no fim do túnel, onde este túnel vai dar? Ouvi mais de uma vez alguém apontar que o Encontros de Interrogação, esse colóquio que reuniu cerca de cem poetas e prosadores, foi um dos mais importantes eventos dos últimos anos. E que essa invasão, acontecida durante dois dias, em todas as salas do Itaú Cultural, no centro da Avenida Paulista, precisa continuar. Se depender do Claudiney Ferreira, idealizador e coordenador do projeto, isso é só o começo. Sempre haverá espaços para todos, ele vive dizendo. Para aqueles que vieram e que não vieram. Para os melhores, e também para os menores, espero.
(*) Marcelino Freire é autor de, entre outros, os livros de contos Angu de sangue e BaléRalé (Ateliê Editorial).
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11:37 AM
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Segunda-feira, Junho 28, 2004
DOM BANDIDO
Reprodução
O bandido de Tomás Lasanski
[Sérgio Baêta](*)
''Dom Bandido vive num desses morros vizinhos daquele escondido lá atrás; mora perto de um barraco distante, bem defronte de outro acolá, não sei, ao certo, exatamente onde. Duvido que alguém daqui saiba ou deseje saber. Os que sabem não são malucos de falar; quem falar sabe o que pode acontecer; quem falou não fala mais. Só se sabe, que seja lá onde for que ele dorme, não desfruta do sono, não consegue sonhar e padece de pesadelos'', explicou Nego Velho, antigo sambista, umbandista convicto e cambista do bicho, o único que não teve medo de conversar sobre aquele marginal, bandido meio herói e muito louco, que a lei procurava, que o povo do morro amava, temia e respeitava, que a polícia odiava e por quem inúmeras mulheres morreriam molhadas e sorrindo.
Talvez por causa da avançada idade, o velho julgasse que nada mais perderia: já não tinha quase nada! No fundo sabia que aquela alma não lhe era ameaça, ao contrário, uma vez, o garoto que vira crescer no morro, o havia livrado de uma boa: ''sim, isso é fato!'' Naquele dia o bicheiro Ziquito, acompanhado de uma tropa de cinco capangas armados de AR-15, escopeta e outras tralhas, quis apoderar-se dos pontos do bicho lá no morro. Balduino, o seu banqueiro, pulou no mundo e deixou só ele, Nego Velho, um simples cambista na mira do bando.
Antes mesmo que uma das armas fosse engatilhada, uma bala 45 cortou a jugular de Ziquito, outra atravessou o peito de Vasconcelos, seu pau de ordens, mais uma quase arrancou a perna de um terceiro e espantou o resto da corja. De olhos fechados pra não ver a morte, paralisado e todo mijado, Nego Velho nada viu da ação. Quando teve coragem de abri-los, qual foi a sua surpresa em se ver vivo? Apalpou-se procurando algum ferimento, olhou em volta, viu Ziquito estrebuchando no chão em espasmos e uma bica de sangue espirrava-lhe do pescoço; morreu em seguida sem uma só gota de sangue nas veias; Vasconcelos nem viu o que o atingiu, fechou o paletó de imediato, e o terceiro rolava no chão e urrava de dor, segurando a perna esfacelada.
A sombra de alguém projetada no chão da viela orientou Nego Velho que levantou os olhos e divisou sobre o barraco da Carmélia a figura de um voluntarioso rapaz moreno. Um jovem com uma camisa branca enrolada na cabeça, músculos rijos, bermuda jeans surrada, segurando duas 45 que nem um mocinho de cinema riu como se aquilo nada fosse e disse:
- Fica esperto Nego Velho, se der bobeira formiga come sua língua!
Dom Bandido deu uma gargalhada; imitando um cowboy soprou o cano de uma das armas e, em seguida, com um tiro de misericórdia estourou a cabeça daquele que guinchava feito um porco. ''Aquele menino era sangue bom, meio nervoso, mas com a gente do morro não existia melhor'', concluiu em silêncio Nego Velho.
* * *
Havia passado pouco das três da madrugada quando bateram na porta do barraco do Vinícius. O homem pulou da cama sobressaltado, acordou Madalena que dormia ao seu lado, correu ao quarto do filho, pegou no colo o pequeno Domingos de sete anos, dirigiu-se à cozinha, arredou a geladeira, colocou o garoto num tipo de nicho apertado, aberto na parede, empurrou de volta a geladeira, abraçou a mulher desesperada e aguardou que arrombassem a porta. Em seguida uma pancada de bota pôs abaixo a porta de compensado.
O menino Domingos, tremendo de medo e de frio, não conseguia entender a intensa confusão que ebulia na sua cabeça. Ouviu discussão na cozinha: a mãe desesperada e o pai implorando pela vida da esposa. Várias vozes acusavam o pai de alguma coisa, mas falavam em enigmas que ele não conseguia decifrar. No entanto, aquela voz grave era inconfundível, já a tinha escutado dezenas de vezes nas batidas da polícia no morro: era a voz do cabo Salomão. A discussão demorou pouco... Um, dois, quatro, seis estampidos ecoaram no alto do morro.
- O menino! Cadê ele? Vamo procurá, temo que fazê o serviço compreto! - disse o cabo Salomão para os comparsas. - Não pode ficá nem rato vivo neste lugar.
- Tá aqui não, chefia! Já olhamo tudo... - respondeu um dos cúmplices.
- Vamo! - ordenou o cabo Salomão. - Depois nós caçamo ele.
O morro, acostumado com o silvo de balas e com o estampido de tiros continuou dormindo. Os barracos mais próximos do acontecido não ousaram abrir as suas portas. Como de lei, ninguém escutou nada, não se viu nada, jamais testemunharam coisa alguma; não havia nada a testemunhar, nada acontecera ali. As consciências dormiam porque a percepção hibernava, o medo era uma necessidade e o temor se acumulava naquelas vidas imberbes de satisfação, sem o lenitivo da esperança.
Mãe Tilá acordara em prantos, com o peito nutrido de aflição. O coração trazia-lhe o pressentimento de novas tristonhas e desespero não muito distante. O rosto ensopado por suor frio e gelatinoso, a pele arrepiada por uma sensibilidade latente e o coração pulsando destranbelhadamente não lhe mentiriam. ''Ao certo algo tenebroso acontecera com alguém que lhe falava ao coração'', concluiu. Não era a primeira vez que aquele fenômeno a seqüestrava do sono. Não era a primeira vez que aquilo lhe anunciava tristeza. Certamente os seus guias a estavam avisando, como sempre faziam através dos sonhos. Uma insuportável angústia inflamava-lhe as entranhas e a sua obstinação teria que ser satisfeita: descobriria o que se passava...
A mãe de santo pulou da cama como se o alvo lençol queimasse a sua pele mulata. Seu corpo iniciou uma revolução contorcendo-se, destorcendo-se e retorcendo-se; inspirava e expirava ares difíceis e profundos. Misturado com uma espécie de soluço articulava palavras rituais: acabara de incorporar um dos seus guias e saíra como um sonâmbulo viela afora. Raimundo Pedrosa, discípulo dela e companheiro nas noites frias, frescas, mornas e quentes acordara sobressaltado. Num átimo inteirou-se da situação e tentou dissuadi-la da intenção de sair, argumentou acerca das traições nas vielas escuras. Entretanto, ele, sim, foi persuadido da inutilidade daquele discurso quando o guia incorporado olhou-lhe de frente e, com insultos, atirou-lhe de volta a proposta como um despautério. Raimundo Pedrosa tremeu e reconheceu que ali não estava Mãe Tilá, tampouco um guia de paz, mas um caboclo enervado, dominado por profunda indignação. Decidiu que a acompanharia fosse onde fosse, não antes de, por precaução, camuflar um 38 sob a camisa.
Mãe Tilá parecia um zumbi subindo as vielas do morro, com um destino indefinido. O reflexo de luzes distantes refletiam nos seus olhos fixos e vidrados que brilhavam como pedras fosforescentes. Vez por outra, tremia-lhe o corpo na iminência de desincorporação do caboclo, mas ele estava firme e resistia ao chamado do astral: não a deixaria antes de cumprir o seu papel. Raimundo Pedrosa não temia o povo dali, mas sabia que uma virtual batalha poderia surgir de uma outra dimensão, dissimulada, impalpável, abstrata. Observava atento a tudo. Um rato do tamanho de um gato pulou à sua frente, ele assustou-se sacou a arma, mas era só um imenso rato, um susto menor, mas um susto. ''Daqui pra frente fico com a arma engatilhada na mão'', decidiu. Poucos instantes depois Mãe Tilá estacou-se frente a um barraco escuro, cuja porta destroçada deixava sair um cheiro de morte. Todo o corpo da mulher estremeceu como se houvera levado um choque elétrico e ela olhou espantada para o acompanhante: o caboclo se fora. Sem muitas delongas ela entrou no barraco, encontrou e acionou o interruptor: a luz se acendeu.
- Eu sabia que era mais uma das maldades do mundo chegando ao meu coração - falou em pranto para Raimundo Pedrosa, quando se deparou com os corpos de seu afilhado Vinícius e da mulher estendidos no próprio sangue. Pediu a Raimundo para vasculhar o barraco à procura do pequeno Domingos. Em princípio nada... Dois sentimentos lhe chegaram simultâneos: desespero e esperança. Não encontrar a criança eram mau e bom sinais. Poderiam tê-lo levado; poderiam não tê-lo encontrado. Mas ela sabia que os orixás não permitiriam desgraça tão grande assim ao seu devoto afilhado, ele já acabara de cumprir a sua sina. Mãe Tilá conhecia até a consciência daquela criatura desafortunada que acabara de ir-se pra sempre; ela mesma benzera aquele barraco e sabia que a esperança era o sentimento mais forte. Lembrou-se do nicho e aflita puxou a geladeira: lá estava ele, Domingos, agachado, com os braços abraçando as pernas, trêmulo; em estado de choque sequer conseguia chorar.
Raimundo Pedrosa levou o menino ao colo, procurou cobrir-lhe os olhos de forma a poupa-lo da cena. Antes de saírem Mãe Tilá pegou uma caixa de madeira envernizada que estava no nicho junto ao menino, e a levou consigo. Desceram o morro e chegaram em casa. Mãe Tilá colocou a caixa sobre uma mesa, acomodou numa cama o menino, que chorava sem lágrimas, segurou as suas para não impressionar a criança, sentou-se ao lado dela, acariciou-a até que a percebeu dormindo. Levantou-se devagar, olhou para si mesma e desatou em pranto convulsivo. Chorou até que lhe secara a última lágrima que tinha para chorar, aí orou a Deus por justiça, observou o pequeno ser que dormia em sua cama, viu desconsolada as luzes da cidade lá embaixo e o que sobrara do encanto das estrelas no céu. Voltou-se, deparou-se com a caixa de madeira envernizada sobre a mesa e a abriu: dois colts 45 prateados brilharam assim que a luz da lâmpada no teto incidiu sobre eles.
* * *
O menino Domingos cresceu sem sorrisos para sorrir. A parca alegria que, em raro lhe aparecia, não era suficiente para aquecer-lhe a alma. Cresceu sem muitas falas, distante, jeito arisco, olhar sombrio e abissal. A madrinha o amparara com ternura e desvelo. Tivera em Raimundo Pedrosa, bem mais que um tio. Há algum tempo o tio emprestado o escolava nas manhas do morro, nas dissimulações das vielas e quando a madrinha se descuidava, lá em cima, na grota escondida das vistas do mundo, a mestria da capoeira e a perícia no tiro eram praticados pelos dois.
Domingos completara treze anos naquele mês de novembro. Mãe Tilá lhe fizera um tosco bolo de aniversário e após algumas recomendações lhe entregou um embrulho de presente:
- Filho do meu coração, dói entregar-lhe isto, mas esta é a única herança que lhe restou. Em qualquer esquina do morro pode fazer um bom dinheiro, vendendo isto, passe pra frente, nunca se atreva a usar!
Ansioso Domingos rasgou o papel e deparou-se com a caixa de madeira envernizada. Não seria necessário abri-la para saber o que continha lembrava-se dela, mas abriu-a. Lembrava-se de ter visto o pai, cuidadosamente, polindo e untando aquelas jóias que recebera como dívida de um carteado. Olhou de esguelha para o tio que entendeu o recado. Mãe Tilá também percebeu o olhar do menino e arrepiou-se com a intuição que lhe visitou, mas já havia entregado o destino do afilhado aos Orixás e eles, desde aquela noite fatídica a haviam alertado: que daquela semente subnutrida, surgiria um guerreiro disposto a tudo na sua coragem e determinação; que o menino tentaria conquistar o céu, as estrelas, a lua cheia, as mulheres mais belas lá do morro - e as teria. ''Cada qual que cumpra a sua sina'', resignou-se a Mãe de Santo.
O menino conhecia cada centímetro de viela do morro, sabia de entradas e saídas daquele lugar, dos túneis de fuga, das locas secretas. Há muito, juntamente com o tio estudava a rotina e as furtivas chegadas e saídas do cabo Salomão: nas segundas-feiras o danado pegava a propina do bicho, nas quintas do tráfico e, nos domingos, sem falhas, após o almoço, gastava dinheiro no boteco do Severino e o tinha com tanta fartura, que, às vezes, rompia a madrugada pagando rodadas.
Nas noites e dias o menino ruminava angústia e esperava... Esperava o tempo correto, a hora exata, o momento preciso de lembrar a família, mas Domingos queria o facínora vivo. Queria saber muita coisa e esperou... Esperou que num domingo qualquer o carrasco dos seus pais tropeçasse na própria imprudência e caísse de podre: assim teria como revidar; coragem não lhe faltaria e o ódio, que já o envenenara era um copo transbordando na sua vida insone. Não esperou tanto assim...
O céu nublado da madrugada não ostentava estrelas, numa das vielas do morro, Salomão tentava equilibrar-se nos próprios calcanhares. Uma porretada precisa dada por Raimundo Pedrosa levou o homem a nocaute. Quando acordou, Salomão viu-se amarrado, amordaçado e vendado. Mesmo antes de Domingos, com um alicate, terminar de arrancar-lhe o primeiro dos dois testículos ele já havia confessado o que o menino queria e delatado tudo e mais outros tudos acontecidos no morro. Entregou três comparsas: o Severino do boteco, o Olavo Sambista e o Paulo Banana. Raimundo Pedrosa estremeceu frente à frieza e obstinação do adolescente. A cabeça do Cabo Salomão foi deixada sobre uma caixa de maçãs, bem no topo do morro.
Domingos descobriu que o veredicto do pai fora dado por Boca de Berro, o dono da banca de jogo, no mesmo dia em que, após perder no carteado todo o dinheiro que tinha consigo fora obrigado, por lei do jogo, a entregar a Vinícius aqueles dois colts que encomendara do estrangeiro. O banqueiro teria tentado resgatar as duas pistolas, mas Vinícius e ele não acordaram o valor. Algum tempo antes do fato Boca de Berro tentara persuadir o Vinícius a lhe vender seu barraco, um ótimo ponto, que ele repassaria ao tráfico, mas Vinícius não era sujeito fácil de se dobrar. Da porta do boteco do Severino, olhando para o alto do morro, Boca de Berro teria dito:
- Se não for de um jeito, fazemo de outro jeito!...
Severino foi encontrado nas cinzas do incêndio que devorou o seu boteco, amarrado, tostado como um leitão e castrado.
Acharam o Olavo Sambista crucificado no cruzeiro do morro, com um pandeiro pendurado nas tripas e um vazio entre as pernas.
O Paulo Banana foi deixado enforcado no precipício da pedreira, sem os olhos, sem as mãos e com o saco sem grãos.
Daí em diante, devagar, começou a surgir um sorriso no homem Domingos, que ainda não aprendera a sorrir, mas já ensaiava gargalhadas sibilantes. Na boca do povo nasceu ''Dom Domingos'', dom da justiça. Foi somente ''Dom'' algum tempo, até que para a polícia se mostrou um bandido. Do povo e da lei: ''Dom Bandido''.
Dom Bandido sabia que mais cedo ou mais tarde, na calma ou no trauma, iria, ao certo, cair ali mesmo, mas ele aprendera a esperar o destino, sem medo ou fuga.
Nas primeiras horas da manhã de uma Segunda-feira, quando se dirigiam ao trabalho, os moradores da favela depararam-se com Boca de Berro empalado no largo da entrada do morro. Depararam-se com um corpo espetado num vergalhão de aço de duas polegadas espessura: fincado no chão como uma estaca o ferro entrava-lhe pela bunda e saia no tampo da cabeça. Havia seis perfurações de 45 no corpo do banqueiro que tinha a boca rasgada dos dois lados, até nas orelhas, faltavam-lhe a língua e a genitália.
O morro, acostumado com o silvo de balas e o estampido de tiros, continuou dormindo. Os barracos mais próximos do acontecido não ousaram abrir as suas portas. Como de lei, ninguém escutou nada, não se viu nada, jamais testemunharam coisa alguma; não havia nada a testemunhar, nada acontecera ali. As consciências dormiam porque a percepção hibernava, o medo era uma necessidade e o temor se acumulava naquelas vidas imberbes de satisfação, sem o lenitivo da esperança.
(*) Sérgio Baêta é jornalista, cronista e contista. Nasceu e vive em Belo Horizonte.
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Quinta-feira, Abril 29, 2004
O SENEGAL TAMBÉM FICA DENTRO DA CONTORNO
[do Balaio]
Por uma noite, um ponto de Beagá estará mais perto de Dacar. Na última sexta-feira de abril, 30, no Deputamadre (avenida do Contorno, 2.028, Floresta), acontece a 5ª Festa de Independência do Senegal, promovida pela Casa África Centro Cultural.
Muita música, dança, culinária e artesanato do continente africano poderão ser conferidos no evento. ''Queremos mostrar a força da cultura africana'', diz o senegalês Ibrahima Gaye, dirigente da Casa África.
Dentro da programação, o músico senegalês Mamour Ba apresentará o show ''Em Conexão Tribal''. Antes, haverá discotecagens de músicas africanas, feitas pelos dj's Ibrahima Gaye e Diamondog (Angola), de black music, sob a responsa de Bené Ramalho, e o cill-out do dj italiano Gean Luca, além de apresentações de capoeira com samba-de-roda e dança afro.
A culinária é outro ponto forte da cultura negra. Na festa, serão servidos os pratos senegaleses mafe (molho de carnes com amendoim, legumes e condimentos especiais), o yassa (frango acebolado e temperado com mostarda) e o thiebu yapo (arroz com carne de carneiro e legumes, temperado com mostarda). No dia, o Deputamadre estará com uma decoração típica, feita com artesanato de diversas nações africanas: máscaras tribais e tecidos pintados.
Os ingressos, que dão direito à degustação das iguarias, custam R$ 15 (quinze reais) e podem ser adquiridos com antecipação na Casa África (rua Leopoldina, 48, Santo Antônio) e no Dora Cabeleireiros (av. Amazonas, 1.049, centro).
História e Negritude
Léopold Sedar Senghor
A festa celebra a independência do Senegal, país da África Ocidental, que, a partir de 1854, foi mantido sob domínio francês por 106 anos. No dia 04 de abril de 1960, o poeta Léopold Sedar Senghor, líder de um grupo de intelectuais que lutaram em favor da descolonização do país, foi eleito o primeiro presidente do Senegal independente. Morto em 2001, Senghor foi o fundador do Movimento da Negritude - palavra que para ele significava ''a soma total dos valores africanos'' -, que buscava negar, e não apenas para os brancos, mas também os próprios negros, principalmente os da diáspora, quanta falácia foi escrita e ''cientificamente comprovada'' sobre a falsa inferioridade intelectual dos povos africanos.
Primeiro membro negro da Academia Francesa de Letras, o poeta estadista obteve ao longo de sua vida cerca de 15 prêmios internacionais de poesia e o título de Doutor Honoris Causa em mais de 20 universidades no mundo, incluindo a Universidade Federal da Bahia, em 1964. ''A Casa África pretende publicar traduções para o português de escritores senegaleses. A começar de Léopold Senghor'', revela Ibrahima, que busca parcerias para concretizar o projeto.
Senegaleses residentes no Brasil estarão presentes na festa para celebrar esse importante marco histórico do Senegal, que no
passado abrigou dois grandes Impérios africanos: o Mandingue e o Uolof.
Música e tradição
Eduardo Tropia/ouropreto.com.br/divulgação
Mamour e o filho no festival "Tudo É Jazz"
A música, ao lado da tradição oral dos ''griots'', como são chamados na África os velhos contadores de histórias, é um dos elementos responsáveis por registrar e transmitir a cultura e o conhecimento africanos. No Senegal, no primeiro mês de gravidez, os pais já começam um trabalho de educação musical com os filhos, por meio do canto. Até os cinco anos, as canções de ninar dão o tom na vida das crianças senegalesas.
Por causa da educação voltada para a música, a criança senegalesa desenvolve mais seu lado artístico. ''A cultura senegalesa é
fundamentada na tradição do ritmo, que não se pode ouvir sem articular, balançar o corpo. E nesse processo o público participa junto com alegria'', enfatiza o músico senegalês Mamour Ba, responsável pelo show ''m Conexão Tribal'', atração da festa.
Residindo no Brasil desde 1981, Mamour Ba possui uma carreira de trajetória internacional. Como percussionista, excursionou com artistas como David Bowie, Sting, Yousson N'Dour, Peter Gabriel, entre outros. Há três anos, Mamour é convidado para ser o coordenador do grupo afro-baiano Malê de Balê, no carnaval de Salvador. Com cerca de 400 percussionistas, o Male de Balê é, entre os blocos afros e afoxés, um dos principais grupos musicais que participaram do processo de reafricanização do carnaval baiano em meados da década de 70.
No show, Mamour Ba se apresentará ao lado da banda Sunu Gal e de seu filho Cheikh Ba, que com apenas 12 anos está sendo considerado um dos grandes talentos na percussão. No ano passado, o público do festival ''Tudo É Jazz'' de Ouro Preto pôde conferir o djembê ''falador'' de Cheikh, que se apresentou junto com o pai. Tal reconhecimento já interfere na agenda de shows dos artistas. Mamour e Cheikh Ba foram convidados para tocar ao lado do cantor David Bowie, em Londres, no segundo semestre deste ano.
SERVIÇO:
5ª Festa de Independência do Senegal
Dia 30 de abril, sexta-feira, às 22 horas
Deputamadre (avenida do Contorno, 2.028, Floresta, Belo Horizonte)
Ingressos antecipados: R$ 15
Informações: (31) 9641-0982 / (31) 3344-1803
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Terça-feira, Março 16, 2004
MULHERES INTERDITADAS
Divulgação
A atriz Leila Diniz, símbolo da liberdade feminina dos anos 60, morta em 1972
[Édimo de Almeida Pereira] (*)
''Toda mulher
quer ser amada.
Toda mulher
quer ser feliz.
Toda mulher
se faz de coitada.
Toda mulher
é meio Leila Diniz.''
(Rita Lee - Todas as mulheres do mundo)
No longo percurso até então atravessado pelas mulheres na militância pelo reconhecimento de seus direitos numa realidade regida pela lógica machista do patriarcado, a formação de um pensamento e a enunciação de discursos preocupados em estabelecer e recriar uma nova imagem para a mulher, bem como em lhe assegurar a conquista de espaços dignos na estrutura social contemporânea, têm sido uma constante. Já em 1949, Simone Beauvoir questionava o descompasso existente entre a concessão do direito de voto às mulheres (o que teria implicado num estado de liberdade cívica para as mesmas) e a paradoxal dependência econômica que as assolava, ressaltando-lhes apenas a sua condição de vassalas. A autora apregoava o trabalho como único recurso capaz de garantir à mulher uma completa liberdade. Todavia, o acúmulo do trabalho extrafamiliar com as atividades domésticas e as numerosas dificuldades que se apresentam para as mulheres que buscam a independência pelo trabalho, muitas vezes, as fazem pensar no retorno ao status anterior. Nesse sentido, merecem destaque as seguintes palavras de Beauvoir:
''A amiga casada ou confortavelmente sustentada é uma tentação para a que deve assegurar sozinha o seu êxito; parece-lhe que se condena arbitrariamente a enveredar pelos caminhos mais difíceis: diante de cada obstáculo, ela se pergunta se não seria melhor escolher outro meio.''
Por outro lado, o conjunto de regras conservadoras que sempre ditou o padrão de comportamento feminino, assim como os padrões familiares de cada época (com a hegemonia masculina na chefia da família, compelindo a voz feminina ao silêncio) geraram uma série de interdições que incapacitaram a mulher para o mundo. Desse modo, a liberdade para explorar e experimentar a vida fora do ambiente familiar tornou-se um privilégio exclusivamente masculino, podendo-se verificar que nesse mesmo tempo o discurso masculino se esforçou por engendrar uma noção de inferioridade feminina, induzindo a mulher a se convencer de que suas possibilidades seriam limitadas. Simone Beauvoir, ao traçar o quadro de dificuldades que se apresentam para a mulher que deseja se desvencilhar da imagem de fragilidade e de incapacidade esboçadas pela fala masculina, foi pontual ao assinalar que:
''As restrições que a educação e os costumes impõem à mulher restringem seu domínio sobre o universo.''
A escritora Virgínia Woolf, por sua vez, em "Um teto todo seu", aponta as vantagens que advêm para a mulher que consegue a independência econômica, independência essa que lhe viabiliza, sobretudo, a oportunidade de pensar o mundo sob uma nova perspectiva. No livro em questão, entre os diversos pontos levantados pela autora está a busca de uma explicação para o fato de sempre ter havido nas obras de ficção - masculinas, já que nunca se deu à mulher a oportunidade de se fixar como grande escritora - uma superioridade feminina:
''De fato, se a mulher só existe na ficção escrita pelos homens, poder-se-ia imaginá-la como uma pessoa da maior importância: muito versátil, heróica e mesquinha; admirável e sórdida, infinitamente bela e medonha ao extremo; tão grande quanto o homem e até maior, para alguns. Mas isso é a mulher na ficção. Na realidade, como assinala o Professor Trevelyan, ela era trancafiada, surrada e atirada ao quarto.''
Considerando os textos de ficção de autoria masculina, Ana Helena Cizotto Belline revela que nas pesquisas feministas de literatura brasileira - numa de suas linhas principais - verifica-se a preocupação em resgatar as escritoras que foram esquecidas e em analisar a escrita feminina, numa tentativa de mitigação da rigidez dos padrões de um cânone que é eminentemente androcêntrico. Por certo, enquanto não se dá a alteração do cânone, as mulheres ainda precisarão se esforçar pela formação de um hábito de leitura que seja, segundo Bellini, ''desmistificadora dos modelos estereotipados de personagens em obras de autoria masculina''. Quanto à escrita de autoria feminina, podemos verificar que ainda se acha restrita à margem do quadro que começou a ser estabelecido na Literatura Ocidental, a partir do século XVIII, com o delineamento do cânone que, hoje, se quer modificado. Por isso mesmo, essa escrita da mulher - seguida de outras formas de discurso provenientes de setores também ditos marginais, como a literatura de determinados grupos étnicos menos favorecidos - vem se desenvolvendo com um considerável grau de complexidade, passando a exigir da crítica formas de leitura da produção literária criada pelas denominadas minorias cognitivas que sejam diferentes daqueles baseados exclusivamente nos padrões canônicos.
Nesse ponto, recorreremos a textos de ficção feminina - o que, de certo modo, contraria o entendimento externado por Teresa De Lauretis em seu artigo "Tecnologia do Gênero", no qual se percebe uma resistência à participação masculina nos trabalhos da crítica feminista - a fim de demonstrar como a escrita feminina pode se colocar a serviço da mulher como ferramenta eficaz na luta pelo próprio reconhecimento, pela tomada de consciência de sua atual condição e pela redefinição de sua identidade na sociedade ocidental e, conseqüentemente, pela modificação dos padrões androcêntricos de apreensão do real. Para tanto, vamos utilizar a leitura dos contos ''Oçoapa'' e ''Porção de Tintas'', da escritora mineira Márcia Carrano , que fazem parte de seu mais recente lançamento pela Funalfa Edições (Juiz de Fora).
Segundo o articulista Ronaldo Cagiano, os personagens nas histórias dessa escritora de Cataguases ''...São seres ensimesmados em suas teias psicológicas, gente que procura reconhecer-se no absurdo, protagonistas de um universo que, muitas vezes, destoa dos padrões sociais e aprofunda as dificuldades de inserção nos patamares da 'normalidade', por isso vivem achacados, nos cantos, sem encaixe no cotidiano, arremetendo-se para o terreno das verossimilhanças''. De início, podemos afirmar que, nos referidos contos, Márcia Carrano nos apresenta mulheres que adotam posturas bastante diferenciadas frente ao real e às relações cotidianas com a alteridade masculina.
Em ''Oçoapa'', a personagem que dá nome ao conto traz a marca da mulher que se submete aos ditames e aos desejos do marido Rate, um aficionado consumidor de carne. O marido enchera de carne todos os cômodos da casa e Oçoapa até ''saboreava com prazer umas boas nacadas''.
Reconhecendo os exageros de Rate e considerando que além da carne, os filhos precisavam de outras coisas, Oçoapa pensa na possibilidade do pedido de divórcio. Porém, a idéia cai por terra, já que não haveria autoridade que desse crédito ao um pedido de divórcio baseado em excesso de arroz ou de carne. Resta à personagem resignar-se: ''Oçoapa tomava leite, muito leite mesmo, para evitar envenenamento. E Rate comia carne, muita carne mesmo''.
O conto evolui até o momento em que Rate, logo após haverem se amado, pede a Oçoapa que lhe passe um bife de carne de porco. A situação faz a personagem se sentir a verdadeira Amélia, pois obtém prazer no preparar o bife para o marido. O ''amor e bifes'' se repete até que Oçoapa se cansa. Rate opta por passar a comer presunto após os momentos de amor. Assim, certa noite em que o marido comia o presunto, Oçoapa passara a sentir na própria carne as mordidas de Rate. Partes de seu corpo vão desaparecendo a cada mordida do esposo, até Oçoapa terminar inteiramente consumida por ele.
A narrativa de Márcia Carrano parece nos revelar a figura da mulher casada ou confortavelmente sustentada referida por Beauvoir, evidenciando - entre o real e o fantástico - a anulação da opinião da mulher face à presença dominante do marido, a submissão e o comodismo que resultam na impossibilidade de reversão do quadro de dominação em que a mulher culmina por ter a própria vida anulada e consumida.
As mulheres retratadas no conto ''Porção de Tintas'', todavia, perfazem um caminho inverso ao da conformada Oçoapa. Virgínia está numa exposição de quadros, acompanhada da amiga Raíssa, que a convida - por estarem as duas em contato com telas em branco e com uma porção de tintas - a tentarem copiar os quadros dos grandes mestres que acabaram de ver (a tarefa só poderia ser feita a quatro mãos e naquele lugar). Virgínia, tímida e espantada, rechaça o convite da ousada Raíssa, tentando justificar o porque da interdição: '' - Ora, Raíssa, nós sequer estudamos arte, lembra-se? Jamais nos ensinaram a técnica da pintura. Como fazer?''.
Apesar dos argumentos da amiga, Virgínia a demove de seu intuito e, aliviada, volta para casa (''Parti para minha rotina doméstica e até as reclamações da filha e do marido me soaram confortantes, depois daquele quadro de vertigem que Raíssa provocara.'').
Numa tarde, Virgínia recebe um telefonema de Raíssa. A amiga estava à sua espera na exposição de quadros. Encontrando-se com Raíssa, a personagem finalmente consegue tocar o material de pintura. Porém, no exato momento em que se sente apta a pintar, percebe que Raíssa desaparecera. Procura-a sem sucesso. Tenta retornar à tela em branco, mas lembra-se de que a obra deveria ser feita a quatro mãos. Em estado de torpor, Virgínia se esquece até mesmo de buscar a filha na saída do colégio.
Na noite do acontecido, Virgínia não consegue retomar a rotina da vida em família (''Não consegui retomar a rotina de minha vida com Tristão. Irritei-me quando ele me criticou por ter deixado Alba esperando na porta da escola. Tivera de ir buscá-la, depois que foi avisado do meu esquecimento e da aflição da menina''.). A partir daí, alguns sinais de modificação na personalidade da personagem e também na sua relação com a família se fazem perceber (''Naquela noite, fomos dormir separados. Passei grande parte da madrugada pensando na tela branca e na porção de tintas''.)
Após muitas tentativas para falar com Raíssa, Virgínia fica sabendo que ela havia viajado. Meses depois, a amiga reaparece para renovar o convite de pintarem a obra-prima. Então, todas as tardes, passavam horas discutindo sobre cores e perspectivas, mas sem tocarem as tintas e a tela branca. Quando Virgínia se animava em pintar, Raíssa recuava, afirmando não ser ainda o momento. A família, a essa altura dos acontecimentos, foi relegada ao esquecimento. No entanto, Raíssa desaparece novamente, o que resulta em tempos de depressão para Virgínia (''A vida com Tristão ficou profundamente abalada. Quase não nos tocávamos e pouco conversávamos. Além disso, a presença de Alba me irritava: ela não sabia de telas e muito menos de tintas. Eles não sabiam''.).
Passados três anos, surge um telegrama de Raíssa, anunciando o seu retorno (''Chego amanhã às 15 horas. A exposição continua lá. Abraços. Raíssa''). Raíssa retorna aparentando um estranho envelhecimento e, para surpresa de Virgínia, não se lembra mais do plano de pintarem o quadro e lhe fala de um novo projeto: abrir um açougue. Vigínia se aborrece com a amiga, mas essa, ignorando por completo aquela história, vai embora, sem a menor explicação (''Não me lembro de ter falado em exposição. Vim porque precisava ouvir você sobre um projeto que tenho em mente, mas não sei como realizar'').
Após isso, instaura-se para Virgínia ''um tempo de névoa e dor'', marcado pela apatia frente à televisão. Até que, recebendo a correspondência pelas mãos do porteiro, percebe nela um envelope negro, cuja leitura de seu conteúdo revela o informe de seu sepultamento. Esse é mais um instante de mudança. A partir dele, Virgínia reage: a mulher devotada ao lar vence a covardia para experimentar a vida com as novas possibilidades que ela descobrira e se vê encorajada a tocar os pincéis e as tintas (''E jamais uma viva-morta assistindo ao próprio enterro.''), para retomar sua vida e revela: ''Não comprei quadros prontos (de outros). Enchi as telas brancas com a porção de tintas que minhas duas mãos conseguiam reter''.
''Porção de Tintas'' demonstra a trajetória da mulher que se sente insegura diante da possibilidade de uma nova experiência. A indecisão e o receio revelados por Virgínia em experimentar a pintura de uma tela em branco - tarefa que desafiaria os grandes gênios da pintura (notadamente homens) - compara-se à experiência da mulher que ousou deixar a estabilidade da vida de casada (remetemos novamente a Beauvoir) para se lançar no mercado de trabalho ou ao exemplo da mulher interditada em sua vivência (restringida ao domínio privado do lar), que toma contato com a (própria) vida fora do círculo familiar (o domínio público) numa verdadeira re-descoberta de sua identidade.
Optando pela experimentação das tintas e das telas, vencendo a covardia para mudar a rotina que a obrigava - negando-se a ser morta, consumida ou anulada por ela -, a personagem de Márcia Carrano instaura um caminho de conquistas a ser seguido - e que já tem sido seguido - pelas mulheres, fazendo lembrar as considerações de Helena Confortin ao analisar a trajetória da mulher no limiar do século XXI, destacando a alteração nas configurações da sociedade ocidental contemporânea, na qual a mulher vem conquistando, paulatinamente, lugar de respeito e de reconhecimento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BELLINE, Ana Helena Cizotto. A Representação da Mulher e o Ensino de Literatura. In: GHILARD-LUCENA, Maria Inês. (Org.). Representações do feminino. Campinas: Átomo, 2003, p. 93-106.
BERGER, Peter Ludwig. Rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural.Trad. de Waldemar Boff e Jaime Clasen. 2.ª ed. revista. Petrópolis/RJ: Vozes, 1997.
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. 7.ª ed.. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1990, 2v. p. 449-483.
CARRANO, Márcia. Porção de Tintas: contos. Juiz de Fora: Funalfa Edições, 2003. p. 21-36, 41-45.
CAGIANO, Ronaldo. ''Sobre a nossa Condição''. In: Estado de Minas, Caderno Pensar, 15/11/2003, p. 4.
CONFORTIN, Helena. Discurso de Gênero: a mulher em foco. In: GHILARD-LUCENA, Maria Inês. (Org.). Representações do feminino. Campinas: Átomo, 2003, p. 107-123.
LAURETIS, Teresa de. Tecnologia do Gênero. In: HOLANDA, Heloísa Buarque de. (Org.). Tendências e Impasses. O feminino como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 207-242.
WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 35-75.
(*) Édimo De Almeida Pereira é mestrando em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora. O autor de ''O Menino Assentado no Meio do Mundo & Outros Contos", a ser lançado no dia 20 deste mês pela FUNALFA Edições, trabalha na dissertação sobre a obra do poeta Adão Ventura.
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Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004
BATE-PAPO ARMENGADO COM GUILHERME NÓBREGA
Guilherme Nóbrega/arquivo pessoal
Guilherme a la Mick Jagger
[Renato Negrão]
Não sei se você gosta de falar no assunto, mas é difícil falar de Guilherme Nóbrega sem voltar na História e trazer à tona, a passagem, o episódio do ovo no José Serra, quais foram suas inclinações?
Na verdade foi uma passagem mesmo. O ovo saiu da minha mão e bateu no paletó em tempo hábil. Uma época da vida, como passaram as eleições, o Lula foi eleito e depois será prefeito de São Paulo...
Qual foi o impulso principal para atirar o ovo?
O impulso principal foi a articulação do braço esquerdo da mão que portava um ovo, quatro segundos.
Você é canhoto?
Para algumas atividades, sou.
E pra tocar baixo?
Destro.
E pra chutar bola?
Canhoto.
Pra masturbar?
Destro. Mas peraí, isso é pergunta que se faça?
Ok. Não precisava responder. Qual foi sua motivação ideológica pra atirar o ovo?
Minha única posição ideológica é a vertical, destinada ao relacionamento com a sociedade, e a horizontal, quando me encontro em momentos de pausa.
Você tem um lado místico. Como se dá essa conjugação de valores tão diversos quanto o misticismo, a boemia e a política?
Mas meu misticismo é agressivo. Qual foi mesmo a pergunta? Ah, meu misticismo é mais concentrado, mais calado e meu Eu superior é mais à flor da pele. Já levei uma vida campesina nas terras do Trigueirinho, acordando às cinco, dormindo às dezenove. Sou um profano e pecador e hoje talvez ainda chore e acenda uma vela por essa resposta que dei.
Você é um empenhado leitor. Quais são seus escritores prediletos e como a literatura faz parte da sua vida?
Meus escritores mais freqüentes são Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Kafka, Maupassant e aquele outro... brasileiro... Otávio Ramos (autor do recém lançado ''A Teia Selvagem do Mundo'', que foi resenhado neste blog). Essa literatura foi a que guiou meus passos para estar com a cabeça nos livros. Alguns livros servem unicamente para as mãos, outros para os pés, mas ainda há aqueles, os melhores, que servem para a cabeça. Estes últimos ocupam parte no meu espírito e exercem grande influência quando eu converso com as pessoas, quando tomo banho ou mesmo à noite, quando converso com os meus pais dando boa noite.
Guilherme Nóbrega/arquivo pessoal
Adolescente, em uma das muitas bandas em que tocou
Dê sua definição sobre o Zen.
(Grande pausa) Essa pergunta desvirtua completamente uma essência e uma real resposta. A qualquer resposta o Zen se perderia completamente; melhor uma metáfora: o Zen é como uma caixa com vento dentro; quando se abre a caixa, o vento sai e se perde. Qualquer resposta passa pelo convencionalismo da interpretação humana sobre tudo o que foi criado e se perdeu. Quando se faz uma pergunta sobre o Zen, o melhor a fazer é ficar em silêncio.
E como a filosofia faz parte da sua vida?
Eu acredito que não há nada mais filosófico que acordar, olhar para as minhas plantas, pegar um pouco de água e jogar em cima delas. Peraí (confuso). Preciso pensar uma resposta...
Quais suas referências musicais?
Agora, por exemplo, estou ouvindo John Lennon, que é uma referência. Além de rock, ouço Milton e o Clube da Esquina, Tom Jobim. A música brasileira areja e alegra o ambiente da casa.
Como é a sua relação com as drogas?
Bem, elas são ótimas. Mas eu tive uma banda em que fui obrigado a expulsar um baixista por que ele estava tendo vários problemas com drogas.
Que tipo de problemas?
É por que no caso... Assim, ele só usava... as minhas. Então, ele foi expulso.
E quais são as suas drogas prediletas?
No momento, eu uso mais a Rede Globo.
Guilherme Nóbrega/arquivo pessoal
Sentado na bateria, atualmente, o principal instrumento
Qual sua relação afetiva com este espaço, o Edifício Malleta?
Como não sou muito gordo, ocupo considerável espaço da cadeira e isso não me atrapalha muito.
E com o centro da cidade?
Gosto do centro com muitos carros, pegar um ônibus qualquer e ir para qualquer lugar e ficar ao lado dos passageiros ouvindo o que eles têm pra falar, sem querer saber onde eles vão chegar e o tempo que vai demorar. Morar no centro me dá essa ampla possibilidade e variedades de locais e itinerários aonde ir.
Uma passagem da sua infância.
Lembro-me que numa festa de casamento em que eu não tinha essa urgência do atarefamento de usar roupas, então as tirei. Fiquei peladão. Minha família tinha se ausentado temporariamente e nenhum adulto teve a urgência de me cutucar e me colocar a boa moral convencional e espiritual da sociedade.
Guilherme Cesarino Nóbrega por Guilherme Cesarino Nóbrega?
Alguém do mal e do bem, que já pensou em suicídio, que acha que a humanidade vai não é a única representante da vida na Terra, mas que fica feliz em cortar o cabelo, contente com várias trivialidades, em pedir uma cerveja no bar, receber um sorriso... Na verdade um caretão.
Para saber mais sobre as bandas de Guilherme clique aqui. Ah, o AP descobriu, também, que o cara escreve contos. Quer ler? Então, vá ao site dele.
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Segunda-feira, Dezembro 22, 2003
ENTREVISTA: BABILAK BAH
O poeta e percussionista Babilak Bah, em entrevista ao ARMENGUE PRESS, falou sobre suas concepções musicais e literárias e dos planos futuros para sua carreira. Confira esse bate-papo!
Netun Lima
Babilak Bah quebra UM jejum de 17 anos sem publicar com o livro ''Vôomiragem''
Armengue Press - Foram 20 anos sem publicar, desde quando você publicou livros na Paraíba. Qual é a sensação de depois de tanto tempo se dedicar novamente à literatura?
Babilak Bah - Só uma correção: acho que não é 20 anos. O último livro que publiquei foi em 86. Então, são 17 anos. O livro chega num momento que ele anuncia, para mim, um renascimento e uma morte, ao mesmo tempo. Ele pondera um novo tempo, um novo entendimento de linguagens da arte. Eu percebo que começo a entender mais o ofício e a produção literária. É um novo posicionamento da minha arte dentro da sociedade. A grande felicidade que o '''Vôomiragem'' traz é de poder estar socializando uma forma de linguagem que trabalho há muito tempo dentro da minha poesia, que considero uma poesia muito ligada à fala, à oralidade. Sempre que eu penso um poema é como se fosse um repente. Não um repente no sentido tradicional, mas como se eu estivesse cantando esse poema, não com a viola, mas com tambores. Então, é como se fosse uma espécie de repente contemporâneo à música que faço. É como se fosse um rap percussivo.
AP - O seu trabalho musical tem como base muitas experimentações. Você já participou de diversas atividades culturais com grupos marginalizados, mendigos e, recentemente, com pessoas portadoras de distúrbios psíquicos. O que os relacionamentos com esses diferentes grupos contribuiu para sua arte?
BB - Minha grande busca, enquanto ser humano, é entender a psicologia do homem. O meu trabalho busca o entendimento do ser, da mística que o envolve. Essa é minha grande preocupação, até mais do que a política. O ser humano é dotado de muita complexidade. Buscando esses grupos, muitas vezes eu me encontro. Se não fosse a arte, eu poderia estar inserido em qualquer um deles, como um mendigo ou um portador de sofrimento psíquico. Para mim, a arte foi um grande portal de salvação, a possibilidade de vislumbrar um outro mundo, estando, ao mesmo tempo, no mundo real.
AP - Você destaca muito no seu trabalho, seja na poesia ou na música, essa oralidade nordestina, até mesmo por você ser nordestino. Quais foram os artistas que te influenciaram? Quais leituras? Quais autores?
BB - Ainda na Paraíba, quem mais influenciou a minha poesia e a minha música foram pessoas muito simples e comuns: os emboladores de coco, os repentistas. Foram eles que me deram a poesia. Mas tem uma pessoa a priori e fundamental nesse processo, com quem aprendi o que é poética, que foi a minha mãe, Dona Iracema. Ela era também uma repentista, uma poeta popular. Eu cresci ouvindo minha mãe versando, rimando cânticos muito bonitos e surrealistas. Já os poetas consagrados que li bastante foram Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, Manoel Bandeira, Ferreira Gullar e os concretistas, os irmãos Campos e Décio Pignatari. Eu não considero que esses autores me deram a poesia, mas eles me deram a metalinguagem, já que, antes de conhecê-los, dentro de mim já existia a poesia que vem dessas pessoas simples com as quais convivi.
AP - Como você mesmo acabou de dizer, parece que essa geografia pessoal do nordeste está sempre marcando presença nos seus trabalhos.
BB - Com certeza, essa geografia é uma inspiração que está sempre presente. Eu sempre me considerei um homem sem pátria, já que a marginalidade sempre foi meu grande terreno. Nos muitos lugares em que passei fui tido como um ser estranho, um forasteiro. Até na Paraíba eu não era identificado como paraibano, devido ao meu protótipo físico. Quando eu morei na Bahia, as pessoas percebiam que eu não era baiano. Aqui em Minas está óbvio que não sou mineiro. Em Santa Catarina, estava na cara que eu não era catarinense. Em Brasília, Buenos Ayres e Ouro Preto a história foi a mesma. Então, eu considero a minha pátria a linguagem. Eu sinto que a Paraíba, onde passei minha infância, traz uma forte lembrança do lugar, de geografia, sobretudo o conteúdo artístico com seus literatos e músicos, desde José Lins do Rêgo, Oliveira de Panela, José da Limeira e, na música, Pedro Osmar, Jarbas Maris, Cácia de França, Vitor Farias, Sivuca.
AP - Você já disse em outras entrevistas que chegou em Belo Horizonte trazido pela poesia. Isso aconteceu há quanto tempo? Como Belo Horizonte surgiu para você?
BB - Eu cheguei em Belo Horizonte em 1988 e tinha feito um livrinho de poesias. Era um livro mimeografado, com o qual eu viajava para várias cidades do Brasil vendendo e declamando poemas nos lugares. Essa cidade é um lugar que me fascina muito. Esse fascínio já começa a partir desse verso curto e inebriante: ''belo horizonte''. Aqui eu senti todo um romantismo e a poética do Clube da Esquina, uma música que sempre quis conhecer de perto. Foi muito difícil quando cheguei, porque haviam poucos poetas vendendo poesia nas ruas. O meu trabalho era bem simples, uma poesia alternativa. Mas quando cheguei nesta cidade eu senti uma mística que me encantou. Voltei para a Paraíba e, depois de um ano, eu já estava morando em Belo Horizonte. Parece que esse meu primeiro encontro com a cidade revelou que aqui havia terreno para minha arte.
AP - A poesia surgiu primeiro do que a música na sua vida?
BB - Conceitualmente, sim. Eu faço música informal desde a infância, tocando em panelas, latas, pratos, por distração. Agora, a poesia me despertou primeiro. Depois eu percebi que era importante que uni-se as duas coisas. Eu lembro que um amigo meu dizia: ''Isso vai dar música''. Foi o que aconteceu. Eu reuni a poética literal com a poética percussiva dos tambores e passei a estudar mais a percussão. Hoje, depois de muito tempo, eu acho que domino a linguagem do batuque, o que fez com que eu retomasse o trabalho literário, após anos dedicados com mais afinco à música. Neste momento, estou envolvido também com o violão, pois quero poder cantar a minha arte. Eu estou vivendo a perspectiva de mostrar-me como compositor.
AP - Nessa nova fase da sua carreira, desse casamento das suas duas vertentes artísticas, como está o seu processo de criação?
BB - Posso dizer que o meu processo de criação é doloroso e, ao mesmo tempo, prazeroso. É inevitável como o ato de criar traz esse antagonismo: prazer e dor. No momento, estou aprendendo violão e componho com ele. Muitas vezes uma seqüência de acordes me inspira uma música. Às vezes me vem uma frase, aí eu pego o violão e começo a tocar aleatoriamente, o que me proporciona imagens para escrever. O violão surgiu para mim, percussionista, como um novo canal de criação, tanto para o canto, a improvisação, quanto para trabalhar a linguagem poética. Mas não há uma disciplina nesse processo. Tem momentos em que componho com o tambor, com a enxada, o que tiver por perto.
AP - Dentro do trabalho experimental que você faz, o show ''Enxadário: orquestra de enxadas'' chamou muito a atenção de quem assistiu, pelo fato de você ter mostrado que é possível abstrair diversos sons de objetos que são muito conhecidos pelas suas principais funções, mas que poucas pessoas imaginam que eles possuam sonoridade. O que desperta em você essa idéia de utilizar nos shows bacias, extintores de incêndio e enxadas como instrumentos?
BB - Isso é mais curiosidade. Eu busco novos elementos para enriquecer o meu trabalho. É uma música que faço, até, intuitivamente. O que me der eu toco (começa a batucar na mesa), batucando para descobrir novas possibilidades sonoras. Por exemplo: eu tenho um instrumento em casa, que se chama ''roda viva''. Eu o achei lá no Borges da Costa, numa antiga moradia de estudantes universitários da UFMG. Eu encontrei isso jogado numa sala. Vi, peguei, bati e percebi um som fantástico, que me deixou encantado. É uma roda de metal que já usei em meus shows. John Cage (filósofo, pintor e escritor norte-americano) falava: ''Não procure fazer uma música que tenha um endereço certo''. Eu acho essa idéia maravilhosa. É poder tocar um instrumento, cujo som para o ouvinte é desconhecido, algo que ele não consegue identificar. Para o compositor, tocar um instrumento inusitado possibilita um maior universo para a criação.
AP - Walter Smetak e Hermeto Pascoal influenciaram você nessa busca de novas manifestações sonoras?
BB - O Hermeto Pascoal foi muito importante, apesar de que quando eu o conheci já tocava essas coisas aleatórias. Tanto o Hermeto quanto Smetak me trouxeram um conceito, mostrando e legitimando que tudo que eu fazia quando menino era arte. Essas pessoas foram importantes porque elas perceberam, pesquisaram e ainda compuseram coisas novas que ampliaram a concepção da música feita no Brasil. Eles provaram que é possível fazer música com instrumentos improvisados e inusitados.
AP - Estamos falando tanto em experimentação, que também está presente no seu novo livro. O que você pensou ao fazer as intervenções visuais no '''Vôomiragem'', como no caso do poema ''Ikebana''?
BB - Ikebana é um arranjo floral de origem japonesa que simboliza os conceitos filosóficos do budismo e que me inspirou a fazer um hai-kai, que eu prefiro chamar de ''haicunho''. É um poema curto (declama: O poeta guarda uma ferida em sua rosa). Nele eu fiz uma inserção sobrepondo uma folha de raio X, que colhi em vários hospitais de Belo Horizonte. Ao escrever o ''Ikebana'' eu procurei perceber que a humanidade é enferma, doentia, cheia de mazelas. Com essa folha de raio X, procurei ilustrar no poema que cada pessoa pode lê-lo e mirar na radiografia a doença do outro e também a sua. Cada um tem uma doença em si, uma dor profunda, uma ferida, um câncer, que pode ser no corpo ou na alma (risos).
AP - Como você define o título do livro, ''Vôomiragem'', que traz até um poema homônimo?
BB - A palavra ''vôomiragem'' surgiu de brincadeira, como uma coisa lúdica. É um neologismo. O ''vôomiragem'', na verdade, demanda um fim. Eu acho que o fim da ingenuidade, o fim da brincadeira.
AP - Do artista?
BB - Também, mas minha enquanto ser humano. ''Vôomiragem'' possibilita que eu mergulhe dentro de mim. São vários vôos místicos e reais, que mostram que eu não quis fazer um livro buscando temáticas políticas cruas, mas com metáforas e simbolismos. ''Vôomiragem'' acaba sendo vários vôos em várias realidades diferenciadas, bastante duras e tristes, que procurei metamorfosear com o universo lúdico da fantasia, para embelezar uma realidade cruel, que nem é vôo nem miragem, mas bastante real: a vida.
AP - Tem alguma coisa do ''Vôomiragem'' que estará no seu próximo trabalho musical?
BB - Tem o poema ''ZenPreto'' - que a pessoa pode lê-lo normalmente ou como ''Zé Preto'', já que no livro a letra ''n'' está vazada, podendo ser expropriada. ''ZenPreto'' também é o nome da banda que me acompanha. É também uma homenagem que faço a todos os zés espalhados pelo Brasil, que ajudaram a construir esse país. São os zés que estão pendurados nas construções civis, nas favelas, aqueles que saíram do nordeste em busca de uma vida mais digna e trabalho no sul e sudeste do Brasil. Muitos deles viraram mendigos ou estão nos presídios e manicômios. Além de trazer todo esse discurso, ''ZenPreto'' será, ainda, o nome do meu próximo disco.
AP - E quem são os músicos que formam a banda ZenPreto?
BB - É o João Pereira, na percussão, o Jonny Herno, outro percussionista, Eduardo Moreira, no contrabaixo, e Saulo Ferreira, na guitarra. Antes, tinha também o Cidinho Silva, que por motivo de saúde saiu do grupo para se tratar. O cd, que está em fase de produção, deve contar com participações especiais de outros artistas, que serão convidados.
AP - No campo literário, quais são os novos planos?
BB - Eu estou escrevendo um texto que pretendo adaptar para o teatro. Essa será minha próxima investida: o intercâmbio com universo teatral. Eu sempre tive um desejo enorme de atuar no teatro. Não sou ator, mas me arrisco a escrever algo teatral (risos).
AP - Qual é a temática principal desse texto?
BB - No momento, o título provisório é ''Filhos da máquina selvagem'', que retrata essa confusão que é o mundo contemporâneo, visando atrair uma reflexão para essa questão. Trata do homem moderno que está perdendo o sentimento humano, distanciando-se das coisas mais simples. Trata da ''maquinização'' do homem, a invasão do mundo virtual que o torna mais animalizado. O texto fala de um homem sem identidade, um ser perdido num emaranhado de confusões ideológicas, ''polido'' pela contemporaneidade.
AP - Como o paraibano Gilson César enxerga o artista e o homem Babilak Bah?
BB - É difícil diferenciar os dois, porque o Gilson César da Silva acaba sendo o Babilak Bah. Na essência, eles são o mesmo. O Babilak Bah é um personagem do Gilson, que tem um trabalho que já consegue penetração e aceitação, após anos trabalhando nesta cidade. Hoje, muitas pessoas em Belo Horizonte já conhecem o Babilak Bah, pela estética e pelos valores que a minha arte proporciona.
SERVIÇO:
Reprodução
''Vôomiragem"
Babilak Bah
Independente
R$ 10 (adquira pelo telefone (31) 9913-9650 ou pelo e-mail babilakbah@hotmail.com)
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