Segunda-feira, Dezembro 22, 2003

ENTREVISTA: BABILAK BAH

O poeta e percussionista Babilak Bah, em entrevista ao ARMENGUE PRESS, falou sobre suas concepções musicais e literárias e dos planos futuros para sua carreira. Confira esse bate-papo!

Netun Lima

Babilak Bah quebra UM jejum de 17 anos sem publicar com o livro ''Vôomiragem''

Armengue Press - Foram 20 anos sem publicar, desde quando você publicou livros na Paraíba. Qual é a sensação de depois de tanto tempo se dedicar novamente à literatura?

Babilak Bah - Só uma correção: acho que não é 20 anos. O último livro que publiquei foi em 86. Então, são 17 anos. O livro chega num momento que ele anuncia, para mim, um renascimento e uma morte, ao mesmo tempo. Ele pondera um novo tempo, um novo entendimento de linguagens da arte. Eu percebo que começo a entender mais o ofício e a produção literária. É um novo posicionamento da minha arte dentro da sociedade. A grande felicidade que o '''Vôomiragem'' traz é de poder estar socializando uma forma de linguagem que trabalho há muito tempo dentro da minha poesia, que considero uma poesia muito ligada à fala, à oralidade. Sempre que eu penso um poema é como se fosse um repente. Não um repente no sentido tradicional, mas como se eu estivesse cantando esse poema, não com a viola, mas com tambores. Então, é como se fosse uma espécie de repente contemporâneo à música que faço. É como se fosse um rap percussivo.

AP - O seu trabalho musical tem como base muitas experimentações. Você já participou de diversas atividades culturais com grupos marginalizados, mendigos e, recentemente, com pessoas portadoras de distúrbios psíquicos. O que os relacionamentos com esses diferentes grupos contribuiu para sua arte?

BB - Minha grande busca, enquanto ser humano, é entender a psicologia do homem. O meu trabalho busca o entendimento do ser, da mística que o envolve. Essa é minha grande preocupação, até mais do que a política. O ser humano é dotado de muita complexidade. Buscando esses grupos, muitas vezes eu me encontro. Se não fosse a arte, eu poderia estar inserido em qualquer um deles, como um mendigo ou um portador de sofrimento psíquico. Para mim, a arte foi um grande portal de salvação, a possibilidade de vislumbrar um outro mundo, estando, ao mesmo tempo, no mundo real.

AP - Você destaca muito no seu trabalho, seja na poesia ou na música, essa oralidade nordestina, até mesmo por você ser nordestino. Quais foram os artistas que te influenciaram? Quais leituras? Quais autores?

BB - Ainda na Paraíba, quem mais influenciou a minha poesia e a minha música foram pessoas muito simples e comuns: os emboladores de coco, os repentistas. Foram eles que me deram a poesia. Mas tem uma pessoa a priori e fundamental nesse processo, com quem aprendi o que é poética, que foi a minha mãe, Dona Iracema. Ela era também uma repentista, uma poeta popular. Eu cresci ouvindo minha mãe versando, rimando cânticos muito bonitos e surrealistas. Já os poetas consagrados que li bastante foram Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, Manoel Bandeira, Ferreira Gullar e os concretistas, os irmãos Campos e Décio Pignatari. Eu não considero que esses autores me deram a poesia, mas eles me deram a metalinguagem, já que, antes de conhecê-los, dentro de mim já existia a poesia que vem dessas pessoas simples com as quais convivi.

AP - Como você mesmo acabou de dizer, parece que essa geografia pessoal do nordeste está sempre marcando presença nos seus trabalhos.

BB - Com certeza, essa geografia é uma inspiração que está sempre presente. Eu sempre me considerei um homem sem pátria, já que a marginalidade sempre foi meu grande terreno. Nos muitos lugares em que passei fui tido como um ser estranho, um forasteiro. Até na Paraíba eu não era identificado como paraibano, devido ao meu protótipo físico. Quando eu morei na Bahia, as pessoas percebiam que eu não era baiano. Aqui em Minas está óbvio que não sou mineiro. Em Santa Catarina, estava na cara que eu não era catarinense. Em Brasília, Buenos Ayres e Ouro Preto a história foi a mesma. Então, eu considero a minha pátria a linguagem. Eu sinto que a Paraíba, onde passei minha infância, traz uma forte lembrança do lugar, de geografia, sobretudo o conteúdo artístico com seus literatos e músicos, desde José Lins do Rêgo, Oliveira de Panela, José da Limeira e, na música, Pedro Osmar, Jarbas Maris, Cácia de França, Vitor Farias, Sivuca.

AP - Você já disse em outras entrevistas que chegou em Belo Horizonte trazido pela poesia. Isso aconteceu há quanto tempo? Como Belo Horizonte surgiu para você?

BB - Eu cheguei em Belo Horizonte em 1988 e tinha feito um livrinho de poesias. Era um livro mimeografado, com o qual eu viajava para várias cidades do Brasil vendendo e declamando poemas nos lugares. Essa cidade é um lugar que me fascina muito. Esse fascínio já começa a partir desse verso curto e inebriante: ''belo horizonte''. Aqui eu senti todo um romantismo e a poética do Clube da Esquina, uma música que sempre quis conhecer de perto. Foi muito difícil quando cheguei, porque haviam poucos poetas vendendo poesia nas ruas. O meu trabalho era bem simples, uma poesia alternativa. Mas quando cheguei nesta cidade eu senti uma mística que me encantou. Voltei para a Paraíba e, depois de um ano, eu já estava morando em Belo Horizonte. Parece que esse meu primeiro encontro com a cidade revelou que aqui havia terreno para minha arte.

AP - A poesia surgiu primeiro do que a música na sua vida?

BB - Conceitualmente, sim. Eu faço música informal desde a infância, tocando em panelas, latas, pratos, por distração. Agora, a poesia me despertou primeiro. Depois eu percebi que era importante que uni-se as duas coisas. Eu lembro que um amigo meu dizia: ''Isso vai dar música''. Foi o que aconteceu. Eu reuni a poética literal com a poética percussiva dos tambores e passei a estudar mais a percussão. Hoje, depois de muito tempo, eu acho que domino a linguagem do batuque, o que fez com que eu retomasse o trabalho literário, após anos dedicados com mais afinco à música. Neste momento, estou envolvido também com o violão, pois quero poder cantar a minha arte. Eu estou vivendo a perspectiva de mostrar-me como compositor.

AP - Nessa nova fase da sua carreira, desse casamento das suas duas vertentes artísticas, como está o seu processo de criação?

BB - Posso dizer que o meu processo de criação é doloroso e, ao mesmo tempo, prazeroso. É inevitável como o ato de criar traz esse antagonismo: prazer e dor. No momento, estou aprendendo violão e componho com ele. Muitas vezes uma seqüência de acordes me inspira uma música. Às vezes me vem uma frase, aí eu pego o violão e começo a tocar aleatoriamente, o que me proporciona imagens para escrever. O violão surgiu para mim, percussionista, como um novo canal de criação, tanto para o canto, a improvisação, quanto para trabalhar a linguagem poética. Mas não há uma disciplina nesse processo. Tem momentos em que componho com o tambor, com a enxada, o que tiver por perto.

AP - Dentro do trabalho experimental que você faz, o show ''Enxadário: orquestra de enxadas'' chamou muito a atenção de quem assistiu, pelo fato de você ter mostrado que é possível abstrair diversos sons de objetos que são muito conhecidos pelas suas principais funções, mas que poucas pessoas imaginam que eles possuam sonoridade. O que desperta em você essa idéia de utilizar nos shows bacias, extintores de incêndio e enxadas como instrumentos?

BB - Isso é mais curiosidade. Eu busco novos elementos para enriquecer o meu trabalho. É uma música que faço, até, intuitivamente. O que me der eu toco (começa a batucar na mesa), batucando para descobrir novas possibilidades sonoras. Por exemplo: eu tenho um instrumento em casa, que se chama ''roda viva''. Eu o achei lá no Borges da Costa, numa antiga moradia de estudantes universitários da UFMG. Eu encontrei isso jogado numa sala. Vi, peguei, bati e percebi um som fantástico, que me deixou encantado. É uma roda de metal que já usei em meus shows. John Cage (filósofo, pintor e escritor norte-americano) falava: ''Não procure fazer uma música que tenha um endereço certo''. Eu acho essa idéia maravilhosa. É poder tocar um instrumento, cujo som para o ouvinte é desconhecido, algo que ele não consegue identificar. Para o compositor, tocar um instrumento inusitado possibilita um maior universo para a criação.

AP - Walter Smetak e Hermeto Pascoal influenciaram você nessa busca de novas manifestações sonoras?

BB - O Hermeto Pascoal foi muito importante, apesar de que quando eu o conheci já tocava essas coisas aleatórias. Tanto o Hermeto quanto Smetak me trouxeram um conceito, mostrando e legitimando que tudo que eu fazia quando menino era arte. Essas pessoas foram importantes porque elas perceberam, pesquisaram e ainda compuseram coisas novas que ampliaram a concepção da música feita no Brasil. Eles provaram que é possível fazer música com instrumentos improvisados e inusitados.

AP - Estamos falando tanto em experimentação, que também está presente no seu novo livro. O que você pensou ao fazer as intervenções visuais no '''Vôomiragem'', como no caso do poema ''Ikebana''?

BB - Ikebana é um arranjo floral de origem japonesa que simboliza os conceitos filosóficos do budismo e que me inspirou a fazer um hai-kai, que eu prefiro chamar de ''haicunho''. É um poema curto (declama: O poeta guarda uma ferida em sua rosa). Nele eu fiz uma inserção sobrepondo uma folha de raio X, que colhi em vários hospitais de Belo Horizonte. Ao escrever o ''Ikebana'' eu procurei perceber que a humanidade é enferma, doentia, cheia de mazelas. Com essa folha de raio X, procurei ilustrar no poema que cada pessoa pode lê-lo e mirar na radiografia a doença do outro e também a sua. Cada um tem uma doença em si, uma dor profunda, uma ferida, um câncer, que pode ser no corpo ou na alma (risos).

AP - Como você define o título do livro, ''Vôomiragem'', que traz até um poema homônimo?

BB - A palavra ''vôomiragem'' surgiu de brincadeira, como uma coisa lúdica. É um neologismo. O ''vôomiragem'', na verdade, demanda um fim. Eu acho que o fim da ingenuidade, o fim da brincadeira.

AP - Do artista?

BB - Também, mas minha enquanto ser humano. ''Vôomiragem'' possibilita que eu mergulhe dentro de mim. São vários vôos místicos e reais, que mostram que eu não quis fazer um livro buscando temáticas políticas cruas, mas com metáforas e simbolismos. ''Vôomiragem'' acaba sendo vários vôos em várias realidades diferenciadas, bastante duras e tristes, que procurei metamorfosear com o universo lúdico da fantasia, para embelezar uma realidade cruel, que nem é vôo nem miragem, mas bastante real: a vida.

AP - Tem alguma coisa do ''Vôomiragem'' que estará no seu próximo trabalho musical?

BB - Tem o poema ''ZenPreto'' - que a pessoa pode lê-lo normalmente ou como ''Zé Preto'', já que no livro a letra ''n'' está vazada, podendo ser expropriada. ''ZenPreto'' também é o nome da banda que me acompanha. É também uma homenagem que faço a todos os zés espalhados pelo Brasil, que ajudaram a construir esse país. São os zés que estão pendurados nas construções civis, nas favelas, aqueles que saíram do nordeste em busca de uma vida mais digna e trabalho no sul e sudeste do Brasil. Muitos deles viraram mendigos ou estão nos presídios e manicômios. Além de trazer todo esse discurso, ''ZenPreto'' será, ainda, o nome do meu próximo disco.

AP - E quem são os músicos que formam a banda ZenPreto?

BB - É o João Pereira, na percussão, o Jonny Herno, outro percussionista, Eduardo Moreira, no contrabaixo, e Saulo Ferreira, na guitarra. Antes, tinha também o Cidinho Silva, que por motivo de saúde saiu do grupo para se tratar. O cd, que está em fase de produção, deve contar com participações especiais de outros artistas, que serão convidados.

AP - No campo literário, quais são os novos planos?

BB - Eu estou escrevendo um texto que pretendo adaptar para o teatro. Essa será minha próxima investida: o intercâmbio com universo teatral. Eu sempre tive um desejo enorme de atuar no teatro. Não sou ator, mas me arrisco a escrever algo teatral (risos).

AP - Qual é a temática principal desse texto?

BB - No momento, o título provisório é ''Filhos da máquina selvagem'', que retrata essa confusão que é o mundo contemporâneo, visando atrair uma reflexão para essa questão. Trata do homem moderno que está perdendo o sentimento humano, distanciando-se das coisas mais simples. Trata da ''maquinização'' do homem, a invasão do mundo virtual que o torna mais animalizado. O texto fala de um homem sem identidade, um ser perdido num emaranhado de confusões ideológicas, ''polido'' pela contemporaneidade.

AP - Como o paraibano Gilson César enxerga o artista e o homem Babilak Bah?

BB - É difícil diferenciar os dois, porque o Gilson César da Silva acaba sendo o Babilak Bah. Na essência, eles são o mesmo. O Babilak Bah é um personagem do Gilson, que tem um trabalho que já consegue penetração e aceitação, após anos trabalhando nesta cidade. Hoje, muitas pessoas em Belo Horizonte já conhecem o Babilak Bah, pela estética e pelos valores que a minha arte proporciona.

SERVIÇO:

Reprodução

''Vôomiragem"
Babilak Bah
Independente
R$ 10 (adquira pelo telefone (31) 9913-9650 ou pelo e-mail babilakbah@hotmail.com)


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