Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004

BATE-PAPO ARMENGADO COM GUILHERME NÓBREGA

Guilherme Nóbrega/arquivo pessoal

Guilherme a la Mick Jagger

[Renato Negrão]

Não sei se você gosta de falar no assunto, mas é difícil falar de Guilherme Nóbrega sem voltar na História e trazer à tona, a passagem, o episódio do ovo no José Serra, quais foram suas inclinações?

Na verdade foi uma passagem mesmo. O ovo saiu da minha mão e bateu no paletó em tempo hábil. Uma época da vida, como passaram as eleições, o Lula foi eleito e depois será prefeito de São Paulo...

Qual foi o impulso principal para atirar o ovo?

O impulso principal foi a articulação do braço esquerdo da mão que portava um ovo, quatro segundos.

Você é canhoto?

Para algumas atividades, sou.

E pra tocar baixo?

Destro.

E pra chutar bola?

Canhoto.

Pra masturbar?

Destro. Mas peraí, isso é pergunta que se faça?

Ok. Não precisava responder. Qual foi sua motivação ideológica pra atirar o ovo?

Minha única posição ideológica é a vertical, destinada ao relacionamento com a sociedade, e a horizontal, quando me encontro em momentos de pausa.

Você tem um lado místico. Como se dá essa conjugação de valores tão diversos quanto o misticismo, a boemia e a política?

Mas meu misticismo é agressivo. Qual foi mesmo a pergunta? Ah, meu misticismo é mais concentrado, mais calado e meu Eu superior é mais à flor da pele. Já levei uma vida campesina nas terras do Trigueirinho, acordando às cinco, dormindo às dezenove. Sou um profano e pecador e hoje talvez ainda chore e acenda uma vela por essa resposta que dei.

Você é um empenhado leitor. Quais são seus escritores prediletos e como a literatura faz parte da sua vida?

Meus escritores mais freqüentes são Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Kafka, Maupassant e aquele outro... brasileiro... Otávio Ramos (autor do recém lançado ''A Teia Selvagem do Mundo'', que foi resenhado neste blog). Essa literatura foi a que guiou meus passos para estar com a cabeça nos livros. Alguns livros servem unicamente para as mãos, outros para os pés, mas ainda há aqueles, os melhores, que servem para a cabeça. Estes últimos ocupam parte no meu espírito e exercem grande influência quando eu converso com as pessoas, quando tomo banho ou mesmo à noite, quando converso com os meus pais dando boa noite.

Guilherme Nóbrega/arquivo pessoal

Adolescente, em uma das muitas bandas em que tocou

Dê sua definição sobre o Zen.

(Grande pausa) Essa pergunta desvirtua completamente uma essência e uma real resposta. A qualquer resposta o Zen se perderia completamente; melhor uma metáfora: o Zen é como uma caixa com vento dentro; quando se abre a caixa, o vento sai e se perde. Qualquer resposta passa pelo convencionalismo da interpretação humana sobre tudo o que foi criado e se perdeu. Quando se faz uma pergunta sobre o Zen, o melhor a fazer é ficar em silêncio.

E como a filosofia faz parte da sua vida?

Eu acredito que não há nada mais filosófico que acordar, olhar para as minhas plantas, pegar um pouco de água e jogar em cima delas. Peraí (confuso). Preciso pensar uma resposta...

Quais suas referências musicais?

Agora, por exemplo, estou ouvindo John Lennon, que é uma referência. Além de rock, ouço Milton e o Clube da Esquina, Tom Jobim. A música brasileira areja e alegra o ambiente da casa.

Como é a sua relação com as drogas?

Bem, elas são ótimas. Mas eu tive uma banda em que fui obrigado a expulsar um baixista por que ele estava tendo vários problemas com drogas.

Que tipo de problemas?

É por que no caso... Assim, ele só usava... as minhas. Então, ele foi expulso.

E quais são as suas drogas prediletas?

No momento, eu uso mais a Rede Globo.

Guilherme Nóbrega/arquivo pessoal

Sentado na bateria, atualmente, o principal instrumento

Qual sua relação afetiva com este espaço, o Edifício Malleta?

Como não sou muito gordo, ocupo considerável espaço da cadeira e isso não me atrapalha muito.

E com o centro da cidade?

Gosto do centro com muitos carros, pegar um ônibus qualquer e ir para qualquer lugar e ficar ao lado dos passageiros ouvindo o que eles têm pra falar, sem querer saber onde eles vão chegar e o tempo que vai demorar. Morar no centro me dá essa ampla possibilidade e variedades de locais e itinerários aonde ir.

Uma passagem da sua infância.

Lembro-me que numa festa de casamento em que eu não tinha essa urgência do atarefamento de usar roupas, então as tirei. Fiquei peladão. Minha família tinha se ausentado temporariamente e nenhum adulto teve a urgência de me cutucar e me colocar a boa moral convencional e espiritual da sociedade.

Guilherme Cesarino Nóbrega por Guilherme Cesarino Nóbrega?

Alguém do mal e do bem, que já pensou em suicídio, que acha que a humanidade vai não é a única representante da vida na Terra, mas que fica feliz em cortar o cabelo, contente com várias trivialidades, em pedir uma cerveja no bar, receber um sorriso... Na verdade um caretão.


Para saber mais sobre as bandas de Guilherme clique aqui. Ah, o AP descobriu, também, que o cara escreve contos. Quer ler? Então, vá ao site dele.

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