Segunda-feira, Junho 28, 2004

DOM BANDIDO

Reprodução

O bandido de Tomás Lasanski

[Sérgio Baêta](*)

''Dom Bandido vive num desses morros vizinhos daquele escondido lá atrás; mora perto de um barraco distante, bem defronte de outro acolá, não sei, ao certo, exatamente onde. Duvido que alguém daqui saiba ou deseje saber. Os que sabem não são malucos de falar; quem falar sabe o que pode acontecer; quem falou não fala mais. Só se sabe, que seja lá onde for que ele dorme, não desfruta do sono, não consegue sonhar e padece de pesadelos'', explicou Nego Velho, antigo sambista, umbandista convicto e cambista do bicho, o único que não teve medo de conversar sobre aquele marginal, bandido meio herói e muito louco, que a lei procurava, que o povo do morro amava, temia e respeitava, que a polícia odiava e por quem inúmeras mulheres morreriam molhadas e sorrindo.

Talvez por causa da avançada idade, o velho julgasse que nada mais perderia: já não tinha quase nada! No fundo sabia que aquela alma não lhe era ameaça, ao contrário, uma vez, o garoto que vira crescer no morro, o havia livrado de uma boa: ''sim, isso é fato!'' Naquele dia o bicheiro Ziquito, acompanhado de uma tropa de cinco capangas armados de AR-15, escopeta e outras tralhas, quis apoderar-se dos pontos do bicho lá no morro. Balduino, o seu banqueiro, pulou no mundo e deixou só ele, Nego Velho, um simples cambista na mira do bando.

Antes mesmo que uma das armas fosse engatilhada, uma bala 45 cortou a jugular de Ziquito, outra atravessou o peito de Vasconcelos, seu pau de ordens, mais uma quase arrancou a perna de um terceiro e espantou o resto da corja. De olhos fechados pra não ver a morte, paralisado e todo mijado, Nego Velho nada viu da ação. Quando teve coragem de abri-los, qual foi a sua surpresa em se ver vivo? Apalpou-se procurando algum ferimento, olhou em volta, viu Ziquito estrebuchando no chão em espasmos e uma bica de sangue espirrava-lhe do pescoço; morreu em seguida sem uma só gota de sangue nas veias; Vasconcelos nem viu o que o atingiu, fechou o paletó de imediato, e o terceiro rolava no chão e urrava de dor, segurando a perna esfacelada.

A sombra de alguém projetada no chão da viela orientou Nego Velho que levantou os olhos e divisou sobre o barraco da Carmélia a figura de um voluntarioso rapaz moreno. Um jovem com uma camisa branca enrolada na cabeça, músculos rijos, bermuda jeans surrada, segurando duas 45 que nem um mocinho de cinema riu como se aquilo nada fosse e disse:

- Fica esperto Nego Velho, se der bobeira formiga come sua língua!

Dom Bandido deu uma gargalhada; imitando um cowboy soprou o cano de uma das armas e, em seguida, com um tiro de misericórdia estourou a cabeça daquele que guinchava feito um porco. ''Aquele menino era sangue bom, meio nervoso, mas com a gente do morro não existia melhor'', concluiu em silêncio Nego Velho.


* * *

Havia passado pouco das três da madrugada quando bateram na porta do barraco do Vinícius. O homem pulou da cama sobressaltado, acordou Madalena que dormia ao seu lado, correu ao quarto do filho, pegou no colo o pequeno Domingos de sete anos, dirigiu-se à cozinha, arredou a geladeira, colocou o garoto num tipo de nicho apertado, aberto na parede, empurrou de volta a geladeira, abraçou a mulher desesperada e aguardou que arrombassem a porta. Em seguida uma pancada de bota pôs abaixo a porta de compensado.

O menino Domingos, tremendo de medo e de frio, não conseguia entender a intensa confusão que ebulia na sua cabeça. Ouviu discussão na cozinha: a mãe desesperada e o pai implorando pela vida da esposa. Várias vozes acusavam o pai de alguma coisa, mas falavam em enigmas que ele não conseguia decifrar. No entanto, aquela voz grave era inconfundível, já a tinha escutado dezenas de vezes nas batidas da polícia no morro: era a voz do cabo Salomão. A discussão demorou pouco... Um, dois, quatro, seis estampidos ecoaram no alto do morro.

- O menino! Cadê ele? Vamo procurá, temo que fazê o serviço compreto! - disse o cabo Salomão para os comparsas. - Não pode ficá nem rato vivo neste lugar.
- Tá aqui não, chefia! Já olhamo tudo... - respondeu um dos cúmplices.
- Vamo! - ordenou o cabo Salomão. - Depois nós caçamo ele.

O morro, acostumado com o silvo de balas e com o estampido de tiros continuou dormindo. Os barracos mais próximos do acontecido não ousaram abrir as suas portas. Como de lei, ninguém escutou nada, não se viu nada, jamais testemunharam coisa alguma; não havia nada a testemunhar, nada acontecera ali. As consciências dormiam porque a percepção hibernava, o medo era uma necessidade e o temor se acumulava naquelas vidas imberbes de satisfação, sem o lenitivo da esperança.

Mãe Tilá acordara em prantos, com o peito nutrido de aflição. O coração trazia-lhe o pressentimento de novas tristonhas e desespero não muito distante. O rosto ensopado por suor frio e gelatinoso, a pele arrepiada por uma sensibilidade latente e o coração pulsando destranbelhadamente não lhe mentiriam. ''Ao certo algo tenebroso acontecera com alguém que lhe falava ao coração'', concluiu. Não era a primeira vez que aquele fenômeno a seqüestrava do sono. Não era a primeira vez que aquilo lhe anunciava tristeza. Certamente os seus guias a estavam avisando, como sempre faziam através dos sonhos. Uma insuportável angústia inflamava-lhe as entranhas e a sua obstinação teria que ser satisfeita: descobriria o que se passava...

A mãe de santo pulou da cama como se o alvo lençol queimasse a sua pele mulata. Seu corpo iniciou uma revolução contorcendo-se, destorcendo-se e retorcendo-se; inspirava e expirava ares difíceis e profundos. Misturado com uma espécie de soluço articulava palavras rituais: acabara de incorporar um dos seus guias e saíra como um sonâmbulo viela afora. Raimundo Pedrosa, discípulo dela e companheiro nas noites frias, frescas, mornas e quentes acordara sobressaltado. Num átimo inteirou-se da situação e tentou dissuadi-la da intenção de sair, argumentou acerca das traições nas vielas escuras. Entretanto, ele, sim, foi persuadido da inutilidade daquele discurso quando o guia incorporado olhou-lhe de frente e, com insultos, atirou-lhe de volta a proposta como um despautério. Raimundo Pedrosa tremeu e reconheceu que ali não estava Mãe Tilá, tampouco um guia de paz, mas um caboclo enervado, dominado por profunda indignação. Decidiu que a acompanharia fosse onde fosse, não antes de, por precaução, camuflar um 38 sob a camisa.

Mãe Tilá parecia um zumbi subindo as vielas do morro, com um destino indefinido. O reflexo de luzes distantes refletiam nos seus olhos fixos e vidrados que brilhavam como pedras fosforescentes. Vez por outra, tremia-lhe o corpo na iminência de desincorporação do caboclo, mas ele estava firme e resistia ao chamado do astral: não a deixaria antes de cumprir o seu papel. Raimundo Pedrosa não temia o povo dali, mas sabia que uma virtual batalha poderia surgir de uma outra dimensão, dissimulada, impalpável, abstrata. Observava atento a tudo. Um rato do tamanho de um gato pulou à sua frente, ele assustou-se sacou a arma, mas era só um imenso rato, um susto menor, mas um susto. ''Daqui pra frente fico com a arma engatilhada na mão'', decidiu. Poucos instantes depois Mãe Tilá estacou-se frente a um barraco escuro, cuja porta destroçada deixava sair um cheiro de morte. Todo o corpo da mulher estremeceu como se houvera levado um choque elétrico e ela olhou espantada para o acompanhante: o caboclo se fora. Sem muitas delongas ela entrou no barraco, encontrou e acionou o interruptor: a luz se acendeu.

- Eu sabia que era mais uma das maldades do mundo chegando ao meu coração - falou em pranto para Raimundo Pedrosa, quando se deparou com os corpos de seu afilhado Vinícius e da mulher estendidos no próprio sangue. Pediu a Raimundo para vasculhar o barraco à procura do pequeno Domingos. Em princípio nada... Dois sentimentos lhe chegaram simultâneos: desespero e esperança. Não encontrar a criança eram mau e bom sinais. Poderiam tê-lo levado; poderiam não tê-lo encontrado. Mas ela sabia que os orixás não permitiriam desgraça tão grande assim ao seu devoto afilhado, ele já acabara de cumprir a sua sina. Mãe Tilá conhecia até a consciência daquela criatura desafortunada que acabara de ir-se pra sempre; ela mesma benzera aquele barraco e sabia que a esperança era o sentimento mais forte. Lembrou-se do nicho e aflita puxou a geladeira: lá estava ele, Domingos, agachado, com os braços abraçando as pernas, trêmulo; em estado de choque sequer conseguia chorar.

Raimundo Pedrosa levou o menino ao colo, procurou cobrir-lhe os olhos de forma a poupa-lo da cena. Antes de saírem Mãe Tilá pegou uma caixa de madeira envernizada que estava no nicho junto ao menino, e a levou consigo. Desceram o morro e chegaram em casa. Mãe Tilá colocou a caixa sobre uma mesa, acomodou numa cama o menino, que chorava sem lágrimas, segurou as suas para não impressionar a criança, sentou-se ao lado dela, acariciou-a até que a percebeu dormindo. Levantou-se devagar, olhou para si mesma e desatou em pranto convulsivo. Chorou até que lhe secara a última lágrima que tinha para chorar, aí orou a Deus por justiça, observou o pequeno ser que dormia em sua cama, viu desconsolada as luzes da cidade lá embaixo e o que sobrara do encanto das estrelas no céu. Voltou-se, deparou-se com a caixa de madeira envernizada sobre a mesa e a abriu: dois colts 45 prateados brilharam assim que a luz da lâmpada no teto incidiu sobre eles.


* * *


O menino Domingos cresceu sem sorrisos para sorrir. A parca alegria que, em raro lhe aparecia, não era suficiente para aquecer-lhe a alma. Cresceu sem muitas falas, distante, jeito arisco, olhar sombrio e abissal. A madrinha o amparara com ternura e desvelo. Tivera em Raimundo Pedrosa, bem mais que um tio. Há algum tempo o tio emprestado o escolava nas manhas do morro, nas dissimulações das vielas e quando a madrinha se descuidava, lá em cima, na grota escondida das vistas do mundo, a mestria da capoeira e a perícia no tiro eram praticados pelos dois.

Domingos completara treze anos naquele mês de novembro. Mãe Tilá lhe fizera um tosco bolo de aniversário e após algumas recomendações lhe entregou um embrulho de presente:

- Filho do meu coração, dói entregar-lhe isto, mas esta é a única herança que lhe restou. Em qualquer esquina do morro pode fazer um bom dinheiro, vendendo isto, passe pra frente, nunca se atreva a usar!

Ansioso Domingos rasgou o papel e deparou-se com a caixa de madeira envernizada. Não seria necessário abri-la para saber o que continha lembrava-se dela, mas abriu-a. Lembrava-se de ter visto o pai, cuidadosamente, polindo e untando aquelas jóias que recebera como dívida de um carteado. Olhou de esguelha para o tio que entendeu o recado. Mãe Tilá também percebeu o olhar do menino e arrepiou-se com a intuição que lhe visitou, mas já havia entregado o destino do afilhado aos Orixás e eles, desde aquela noite fatídica a haviam alertado: que daquela semente subnutrida, surgiria um guerreiro disposto a tudo na sua coragem e determinação; que o menino tentaria conquistar o céu, as estrelas, a lua cheia, as mulheres mais belas lá do morro - e as teria. ''Cada qual que cumpra a sua sina'', resignou-se a Mãe de Santo.

O menino conhecia cada centímetro de viela do morro, sabia de entradas e saídas daquele lugar, dos túneis de fuga, das locas secretas. Há muito, juntamente com o tio estudava a rotina e as furtivas chegadas e saídas do cabo Salomão: nas segundas-feiras o danado pegava a propina do bicho, nas quintas do tráfico e, nos domingos, sem falhas, após o almoço, gastava dinheiro no boteco do Severino e o tinha com tanta fartura, que, às vezes, rompia a madrugada pagando rodadas.

Nas noites e dias o menino ruminava angústia e esperava... Esperava o tempo correto, a hora exata, o momento preciso de lembrar a família, mas Domingos queria o facínora vivo. Queria saber muita coisa e esperou... Esperou que num domingo qualquer o carrasco dos seus pais tropeçasse na própria imprudência e caísse de podre: assim teria como revidar; coragem não lhe faltaria e o ódio, que já o envenenara era um copo transbordando na sua vida insone. Não esperou tanto assim...

O céu nublado da madrugada não ostentava estrelas, numa das vielas do morro, Salomão tentava equilibrar-se nos próprios calcanhares. Uma porretada precisa dada por Raimundo Pedrosa levou o homem a nocaute. Quando acordou, Salomão viu-se amarrado, amordaçado e vendado. Mesmo antes de Domingos, com um alicate, terminar de arrancar-lhe o primeiro dos dois testículos ele já havia confessado o que o menino queria e delatado tudo e mais outros tudos acontecidos no morro. Entregou três comparsas: o Severino do boteco, o Olavo Sambista e o Paulo Banana. Raimundo Pedrosa estremeceu frente à frieza e obstinação do adolescente. A cabeça do Cabo Salomão foi deixada sobre uma caixa de maçãs, bem no topo do morro.

Domingos descobriu que o veredicto do pai fora dado por Boca de Berro, o dono da banca de jogo, no mesmo dia em que, após perder no carteado todo o dinheiro que tinha consigo fora obrigado, por lei do jogo, a entregar a Vinícius aqueles dois colts que encomendara do estrangeiro. O banqueiro teria tentado resgatar as duas pistolas, mas Vinícius e ele não acordaram o valor. Algum tempo antes do fato Boca de Berro tentara persuadir o Vinícius a lhe vender seu barraco, um ótimo ponto, que ele repassaria ao tráfico, mas Vinícius não era sujeito fácil de se dobrar. Da porta do boteco do Severino, olhando para o alto do morro, Boca de Berro teria dito:

- Se não for de um jeito, fazemo de outro jeito!...

Severino foi encontrado nas cinzas do incêndio que devorou o seu boteco, amarrado, tostado como um leitão e castrado.
Acharam o Olavo Sambista crucificado no cruzeiro do morro, com um pandeiro pendurado nas tripas e um vazio entre as pernas.
O Paulo Banana foi deixado enforcado no precipício da pedreira, sem os olhos, sem as mãos e com o saco sem grãos.
Daí em diante, devagar, começou a surgir um sorriso no homem Domingos, que ainda não aprendera a sorrir, mas já ensaiava gargalhadas sibilantes. Na boca do povo nasceu ''Dom Domingos'', dom da justiça. Foi somente ''Dom'' algum tempo, até que para a polícia se mostrou um bandido. Do povo e da lei: ''Dom Bandido''.

Dom Bandido sabia que mais cedo ou mais tarde, na calma ou no trauma, iria, ao certo, cair ali mesmo, mas ele aprendera a esperar o destino, sem medo ou fuga.

Nas primeiras horas da manhã de uma Segunda-feira, quando se dirigiam ao trabalho, os moradores da favela depararam-se com Boca de Berro empalado no largo da entrada do morro. Depararam-se com um corpo espetado num vergalhão de aço de duas polegadas espessura: fincado no chão como uma estaca o ferro entrava-lhe pela bunda e saia no tampo da cabeça. Havia seis perfurações de 45 no corpo do banqueiro que tinha a boca rasgada dos dois lados, até nas orelhas, faltavam-lhe a língua e a genitália.

O morro, acostumado com o silvo de balas e o estampido de tiros, continuou dormindo. Os barracos mais próximos do acontecido não ousaram abrir as suas portas. Como de lei, ninguém escutou nada, não se viu nada, jamais testemunharam coisa alguma; não havia nada a testemunhar, nada acontecera ali. As consciências dormiam porque a percepção hibernava, o medo era uma necessidade e o temor se acumulava naquelas vidas imberbes de satisfação, sem o lenitivo da esperança.

(*) Sérgio Baêta é jornalista, cronista e contista. Nasceu e vive em Belo Horizonte.

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